Memórias

Existem várias formas de elaborar nosso processo de luto, uma delas é a partir da escrita e compartilhamento de sentimentos que emergem com esse processo. Por isso criamos este espaço.

Aqui cabe um universo de emoções: tristezas, dores, medos, memórias, lembranças, afetos. Cabe um amor, um tio, um pai, uma mãe, um amigo, um avô. Cabe o que for de coração.

Você pode escrever o que quiser e como quiser. E pode escolher se quer o texto publicado ou prefere deixá-lo em um cantinho só seu. A gente vai te responder, dando atenção e acolhimento que você precisa e merece.

Fique à vontade, a página é inteiramente sua.

Enviar minhas memórias

Meu pai Lourival

por Jaqueline da Silva Ramos

Meu pai era um pedaço de mim, era meu porto seguro, qualquer problema que eu tivesse, era só chamar que ele vinha correndo me socorrer, era um figuraça, adorava uma bagunça, sempre animado, irreverente, aproveitou até seu último minuto de vida fazendo as coisas que gostava. O amor da minha vida!

Meu pai Jesus

por Paloma Chediak

Perder meu pai por covid-19 foi o acontecimento mais triste da minha vida. Como se não bastasse a dor profunda da perda de um pai amado, a crueldade de ver a vida dele sendo ceifada de maneira tão rápida e violenta, torna tudo um pesadelo impossível de compreender.

As circunstâncias que rondam essa doença, desde a contração do vírus até a necessidade de internação, são particularmente angustiantes. A forma como o vírus entrou no corpo do meu pai é misteriosa, visto que estava bem informado e se cuidando metodicamente. Desta forma, sinto como se meu pai tivesse sido vítima de um acaso impiedoso, como uma bala perdida “invisível”. A urgência da internação foi um golpe duríssimo, vivi dias de intensa aflição, cada minuto parecia uma eternidade e tamanho foi meu sofrimento que era insuportável não recorrer a ansiolíticos.

A notícia do falecimento impôs uma ruptura radical na minha vida, separando o antes e o depois deste trauma. Cheguei a escrever no dia “nada será como antes”, pois é justamente como eu me sinto… A maneira como se deu a minha perda ainda não faz sentido para mim, mas a terapia já está me mostrando caminhos para ressignificar tudo isso e formas de tornar meu pai presente na minha vida, ainda que simbolicamente. O meu desejo é que, de alguma forma, minha dor se torne potência para levar adiante os ensinamentos preciosos que ele me deixou, sabendo o quanto isso o deixaria feliz.

Meu esposo Emanuel e minha mãe Rosa

por Jacqueline Soares Thomaz

Olá, me chamo Jacqueline, tenho 31 anos, e até antes de começar a pandemia eu tinha uma vida de sonhos, casada há quase 7 anos, 11 anos vivendo com meu companheiro, onde temos um filhinho de 6 anos que tem paralisia cerebral, que é super esperto, sua lesão é apenas motora!

Minha mãe sempre nos ajudou a tomar conta das crianças tanto que quando viajávamos os dois, sempre era a minha mãe que ficava com eles (tenho um mais velho que tem 15 anos, fruto de um breve relacionamento na adolescência), minha mãe banca os netos, especialmente o Breno, meu filho mais velho que ela me ajudou a criar.

Depois que Emanuel (meu caçula) nasceu, eu parei minha vida para tomar conta dele, deixei de trabalhar e comecei no primeiro momento ir atrás de diagnóstico e depois nas terapias. Para não deixar de viver a vida a dois contava sempre com a minha Rosa (minha mãe) para tomar conta das minhas crianças, e eu e meu esposo (Emanuel também) podíamos ter uma folguinha da rotina, o que era ótimo!

Emanuel (marido) era dentista e sempre realizou com excelência suas funções, era o único provedor da nossa casa, moramos numa boa casa, num condomínio tranquilo, casa essa que ele conquistou com esforço exclusivo de seu trabalho como dentista! Esse ano tínhamos planos, eu entrei para faculdade de psicologia, estava muitíssimo animada em poder dar esse passo e ir atrás do grande sonho da minha vida, e ele sempre me apoiando, feliz e entusiasmado por poder me ajudar a realizar este sonho…

Até que chegou a quarentena por conta da pandemia, e na segunda quinzena de março quando tudo parou, ficamos em casa, foi nosso aniversário, ele fez aniversário dia 20, eu dia 21 e nosso filho dia 26, todos em março, no final do mês ele já estava começando a ter medo de ficar sem ter meios de manter as contas, as funcionárias e nossa casa, com isso também começaram as ligações de pacientes solicitando atendimento de emergência pois o aparelho estava machucando a boca, outra que ainda tinha pontos para serem retirados, enfim, cada vez mais ele sentia necessidade de voltar ao consultório (lembrando que a quarentena, não impedia o atendimento de médicos e dentistas, estes podiam continuar seus atendimentos) e mesmo contra a minha vontade ele disse que voltaria, e voltou.

Eu não pude fazer nada para impedi-lo, tão logo ele retornou em abril, e apesar de ter diminuído o número de atendimentos ele seguiu atendendo, quando no dia 7 de abril (terça-feira) ele atendeu uma paciente que era esteticista e aproveitou para fazer retoque de um procedimento chamado microagulhamento em seu rosto e mãos, eu não sabia, pois se soubesse não teria mesmo deixado ele fazer, pois sei que pode dar uma baixa na imunidade da pessoa que faz e em plena pandemia a última coisa que podia acontecer era ele ter uma baixa na imunidade.

Liguei para ele neste dia, porque passou do horário dele chegar e foi nesse momento que ele me disse que havia feito, me preocupei, quando ele chegou me informou que estava sentindo um mal estar, imaginamos que poderia ter sido por conta do procedimento, neste dia jantou, fomos dormir e até aí tudo bem.

Na quarta-feira, dia 8, ele chegou em casa cedo pois assistíamos juntos a programação de um canal que gostamos muito, e ele queixou-se novamente de um mal estar e disse que achava que estava ficando gripado, nesse dia já dei um efervescente de vitamina c com zinco pra ele, comeu normalmente e foi dormir, dormimos juntos sempre, na quinta-feira ele foi ao consultório, atendeu e como era véspera de feriado desmontou o equipamento de foco de seu consultório pois iria pintá-lo.

Sexta-feira, feriado de Sexta-feira Santa, ele ficou em casa e já tinha sintomas de resfriado, eu continuava com a vitamina c, mas ele não melhorava, até que no final desse dia ele apresentou febre, aí eu já estava muito alerta para sintomas de covid-19, embora ele estivesse totalmente descrente, comecei a entrar em contato com pessoal da linha de frente, médicos, anestesistas, infectologista e a recomendação era a mesma: não vá ao hospital, o covid vai pegar você, tudo cheio, muita gente doente e etc..

Iniciamos medicação e ele ficava bem até que no sábado decidimos por levá-lo, e assim foi, no exame de sangue uma discreta alteração viral, porém pediram para voltar em 48 horas para repetir, porém na madrugada de domingo para segunda ele vomitou muito e eu levei ele pra emergência, não pude ficar porque deixei meu filho de 6 anos sozinho, o mais velho estava com a minha mãe pra que ela não ficasse sozinha na quarentena.

Deixei ele no hospital e voltei pra casa, já muito preocupada e no fim do dia, depois de quase um dia todo no hospital ele volta com uma tomografia com alteração compatível com quadro inicial de covid, ele foi mandado para casa com indicação da Azitromicina um comprimido por dia e Novalgina de 1 grama de 8 em 8 horas e Dramim por conta das náuseas, fiz toda medicação a esta altura comecei a dormir no quarto do meu filho, pois temia ficar doente também e não ter como cuidar dele e nem do pequeno.

De quarta em diante ele deu uma grande prostrada, e na quinta-feira conversamos sobre ele aceitar que estava doente e deveria tomar a medicação e se alimentar para sair daquele quadro. Eu dizia que não queria que ele fosse para o hospital. Antes disso na terça-feira ele fez o teste de covid aqui em casa mesmo, um laboratório veio realizar a coleta.

Passou nossa conversa de quinta-feira e na sexta ele acordou com leve falta de ar, liguei pra Lucia, nossa secretária, pedi a gentileza que ela viesse só para olhar o Emanuel porque eu sabia que iria demorar, não precisava que ela fizesse nada, era só pra ficar com ele pois não tinha ninguém pra deixá-lo.

No hospital sua saturação estava 85, foi para o oxigênio e fui logo informada que precisaria interná-lo com urgência, mas que onde estávamos não havia leitos de CTI com respirador disponível, esperamos transferência, que saiu no final da tarde. Fui com ele na ambulância, tinha levado uma mantinha e o cobri pois estava com frio. Fomos juntos e sozinhos na parte de trás, conversamos e ele novamente me disse que estava com medo de morrer e eu enfaticamente disse que NÃO, que ele voltaria logo pra casa, porque era forte e muitíssimo saudável, e que sairia dali plenamente curado!

Sinto que eu o enganei, pois no dia seguinte ele foi intubado e exatamente uma semana após o tubo, ele se foi, por uma parada cardíaca de 50 minutos, em 8 dias no hospital o covid tirou o amor da minha vida, pai do meu filho e melhor amigo! Me despedacei, mas não acaba aí….

Nesta semana em que meu marido passou internado, eu não podia ficar com ele, então fui até a minha mãe buscar meu filho mais velho, para caso eu precisasse sair de casa e não tivesse que levar o pequeno pra rua, mas não sai do carro, estava de máscara, ela me perguntou se eu gostaria que ela fosse pra minha casa para ficar com a gente, disse que não, tinha medo e que queria ajudar (a marca dela era essa, sempre querer ajudar) e eu disse não, porque eu queria de todo modo preservá-la.

Ela me disse que não sentia gosto das coisas, eu nem me atentei, só falei para ela se cuidar e que a amava muito. Ela ficou triste porque queria me abraçar, disse a ela que nós nos abraçaríamos muitas vezes ainda. Novamente eu menti, mal sabia que aquela era a última vez que eu a estava vendo. Na sexta-feira, dia 24 de abril, um dia antes do falecimento do meu esposo, minha linda pediu ao meu pai para que a levasse no hospital pois estava se sentindo com desconforto para respirar, não me falaram nada, eu creio que para me poupar pelo tanto que eu já estava passando.

No domingo, dia 26, um dia após o falecimento do meu esposo ela foi transferida da UPA para o hospital de campanha do Leblon e no dia 27, segunda-feira foi o sepultamento do meu esposo. Nesse mesmo dia, minha linda princesa foi entubada, e vivemos dias de terror como numa montanha russa, ela brigava arduamente pela vida, diferente do meu esposo que foi rapidamente muito comprometido pelo alastramento da doença que danificou muitos órgãos de seu corpo.

Em minha mãe a doença ficou no pulmão e ela melhorava um dia e piorava 3 e foi passando dias, uma semana, duas, três e eu já achava que ela sairia de lá com vida, mas foram aparecendo as infecções pulmonares por bactérias, e foram mais duas, e ela brigando muito pela vida, uma guerreira. Nesse meio tempo foi o aniversário de 15 anos do meu filho Breno, esse menino que ela ajudou a criar, e exatamente uma semana depois no dia em que fez um mês do sepultamento do meu amor, recebo a ligação do hospital chamando a família, mas eu já sabia, minha linda também havia partido e eu fiquei duplamente quebrada.

Sem chão, sem rumo, tentando ser forte, por causa de meus filhos, mas a minha sensação é que estou ainda em queda livre, já perdi a alegria que eu tinha de viver. Hoje eu apenas sobrevivo, porque se eu não levantar, eles não comem, porque se eu morrer eles vão ficar sem nada.

Eu estou tentando, mas o tempo só me mostra que não melhora, todo dia eu sinto falta deles, todo dia eu gostaria de ter ido no lugar deles dois, penso que se fosse eu no lugar deles as coisas seriam mais fáceis, pois estava tudo arrumadinho na vida deles, e a minha que estava no caminho para se acertar, ela encontra-se como um quebra cabeças de 3 mil peças espalhadas e eu não tenho a mínima vontade de arrumar, estou em modo automático!

Minha irmã Marta

por Marine Andrade

Perdemos nossa querida Marta.
Uma irmã muito amada e que além de ser uma mãe zelosa, que amou incondicionalmente sua filha, também viveu intensamente para o trabalho, para a nossa mãe, suprindo a falta de nosso pai por ser a mais velha e esteio da família, e que foi nossa companheira durante toda uma vida.

Sua perda é e será irreparável! Nunca será curada mas sim amenizada pelo tempo. Pois sabemos que o tempo se encarrega dessas mazelas da vida. Eu, com o meu coração ainda enlutado estou tentando viver e entender!

Sei que o processo é lento ainda mais quando pelo fator idade, já perdemos outros entes queridos! Nosso cérebro demora mais para processar tanta tristezas. Estou vivendo. Um dia de cada vez!

Oro. Medito. Tentando ainda processar essa fatalidade. Não está sendo fácil. Além do isolamento dos meus filhos, a minha solidão… Penso ainda a todo instante se é verdade. Estou vivendo este momento. Será que tudo é verdade? Peço a Deus acordar e ser um pesadelo!!!

Meu pai Roberto

por Dayvison Hilário

Com o início do surto na China, notei algo diferente: estavam tratando a gripe como se trata ebola, com roupas muito especiais. Em janeiro, fiz um post alertando que chegaria aqui. E chegou. Em março, alertei a todos que ficassem em casa. Aos meus pais, aposentados, pedi que não saíssem para nada.

Eu e minha namorada trabalhamos como médicos na linha de frente. No final de abril, ela adoeceu. No dia em que a levei para fazer o exame, meu pai me disse que também estava doente. Comprei tudo em dobro para tratá-los em casa. Ambos estavam bem e sem necessidade de internação.

Após uma semana tratando os dois em casa, e vendo a necessidade em ajudar mais pessoas com covid-19, resolvi aceitar um convite para trabalhar no hospital de campanha em Niterói. Liguei e acertei para iniciar no dia seguinte.

Naquela terça, fui internar uma gestante com covid-19. Esposa de médico e grávida de 25 semanas. Minha namorada estava bem melhor. Meu pai me disse que não havia pregado o olho àquela noite. Foi aí que acendeu uma luz amarela. Fui à casa deles e vi a saturação do meu pai em 87%.

Dia 5 de maio levei-o a um hospital particular onde a tomografia mostrou comprometimento de 70% dos pulmões. Quando iam interná-lo, fiquei sabendo da falta de vagas. Meu plantão começaria às 19h. Avisei que não poderia ir.

Levei meu pai para um hospital público, onde alguns colegas me ajudaram e o internei. No dia seguinte, ele foi transferido para o hospital de campanha onde eu deveria ter iniciado no dia anterior. Ficou 48 horas acordado. No dia 8/5, ao meio dia, cheguei para vê-lo. Ele segurou minha mão, disse que havia falado com minha mãe pelo celular da médica plantonista e que iriam intubá-lo. Eu disse que não!

Mas ao olhar para o lado, vi que já estava tudo preparado. Segurei sua mão e disse que seria melhor, para ele descansar e conseguir dormir, que estaria ali com ele, segurando sua mão. Ele apertou minha mão, foi sedado e adormeceu. Sua mão foi soltando a minha, e em questão de um minuto, já estava em ventilação mecânica.

Foram 21 dias assim, sem voltar a acordar. Nesses dias, como era médico do hospital, entrei e saí diversas vezes daquele CTI. Fiz alguns procedimentos no meu pai, como punções, coletas de exames, solicitações de raio-x, além de discutir com os colegas sobre as condutas.

Depois que saía, ligava pra minha mãe. Dias animado com a melhora, outros desanimado com a gravidade do quadro. Dei alguns plantões no CTI com meu pai intubado. Tentei de todas as maneiras tirá-lo do respirador. Infelizmente, no último dia 29/5, meu herói partiu.

Para minha família, por causa da impossibilidade de visitas, o distanciamento aconteceu no dia 5/5. Já pra mim, a despedida foi no dia 30/5, onde fui reconhecer o corpo na capela mortuária do hospital. Pedi para deixar o rosto visível dentro do caixão lacrado. Fui atendido, e ao chegar no cemitério, onde não pode haver velório e somente 10 pessoas no sepultamento, antes de o colocarem na sepultura, abri o local onde fica o vidro para minha mãe poder olhar meu pai pela última vez. Ali nos despedimos dele.

Agora ficam as lembranças, a saudade e o vazio que jamais será preenchido. E pensar que ele pegou a doença por me achar desesperado demais, que era só uma gripe, e por isso, não obedeceu o que pedi: que ficasse em casa.

Nos primeiro 40 dias, não entrei nenhuma vez na casa dos meus pais. Chegava da rua, de dentro do carro, conversava com eles sem desligar o motor e seguia. Mas ele saía depois, pois não acreditava na gravidade da doença. Depois, começou a deprimir vendo tantos comércios fechados. Adoeceu, ficou grave, partiu. Eu tentei de tudo, mas não consegui salvar meu pai. Infelizmente.

Agora, volto amanhã, dia 9/6 para a guerra, pois essa foi só uma dura batalha perdida.

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