Memórias

Existem várias formas de elaborar nosso processo de luto, uma delas é a partir da escrita e compartilhamento de sentimentos que emergem com esse processo. Por isso criamos este espaço.

Aqui cabe um universo de emoções: tristezas, dores, medos, memórias, lembranças, afetos. Cabe um amor, um tio, um pai, uma mãe, um amigo, um avô. Cabe o que for de coração.

Você pode escrever o que quiser e como quiser. E pode escolher se quer o texto publicado ou prefere deixá-lo em um cantinho só seu. A gente vai te responder, dando atenção e acolhimento que você precisa e merece.

Fique à vontade, a página é inteiramente sua.

Enviar minhas memórias

Meu filho Mauro de Melo Pires

por Ângela

Hoje faz um mês que perdi meu filho para esse vírus.

Meu filho era saudável. Não tinha nenhuma doença. Não saia de casa, somente para trabalhar. Tinha muito medo dessa doença e me falava várias vezes, “mãe, se eu pegar a covid-19, não irei resistir, pois estou muito gordo…”.

Ouvir aquilo arrebentava meu coração, mas como ele se cuidava, acreditava que isso não aconteceria…
De repente, no mês de julho, fui surpreendida. Meu filho apresentou uma dor nas costas e dor de cabeça. Levamos ele ao médico e, através de exames, foi detectado a covid-19. Neste momento uma preocupação tomou conta de mim. Mas, ainda assim, achava que seria uma “covid-19 leve”. Engano meu.

Meu filho tomou antibióticos em casa, receitados pelo médico por 5 dias. Mas, por incrível que pareça, não melhorava. Só ia piorando, ele ia ficando muito deitado, perdeu o ânimo de tudo, se alimentava pouco…

Durante esses 5 dias não apresentou tosse e nenhum sintoma gripal. Foi muito estranho, pois a covid-19 atingiu o pulmão logo “de cara”.

Retornamos ao médico e uma ressonância detectou a inflamação no pulmão, estava com 35% de comprometimento. Os médicos acharam melhor internar. E aí meu pesadelo começou…

Dia 20/07/2021 meu filho saiu de casa… para nunca mais voltar 😭😭😭

Ficou internado na enfermaria usando a máscara e nada de melhorar. Foi transferido para UTI, aumentaram a máscara e a melhora não vinha… Ficou 5 dias entre enfermaria e UTI.

Infelizmente, pela situação em que estava, começou a ter um quadro de ansiedade muito forte. Onde desesperado, não conseguindo se controlar, falou para a médica que iria morrer.

Meu filho sofria de ansiedade. Era um pouco depressivo também. E ficar em uma UTI com covid-19 só piorou a situação dele.

A médica, após analisar a situação, achou por bem intubá-lo. Porém, como a ansiedade dele estava muito grave, ela não disse que iria intubá-lo, perguntou somente se ele queria tomar um remédio para dormir, pois estava cansado e ele aceitou… Logo entrou em contato conosco e nos informou do acontecido. E, neste momento, nos comunicou da intubação.

E aí começou o meu fim! Pois a cada dia do meu filho naquela UTI, eu morria um pouco.

Ele ficou 18 dias intubado. Seu aniversário de 23 anos chegou e meu filho estava na UTI intubado… 😭😭😭

Tentava ter esperanças. Apesar dos boletins nunca serem bons, orei muito pelo meu filho, para que se recuperasse e voltasse para casa. Mas essa esperança foi interrompida quando seus rins começaram a falhar. E, ao fazer hemodiálise, seu coração não suportou…

Desde então uma parte minha, do meu coração, se foi com meu filho. Tenho tentado sobreviver, mas está muito difícil! Meu filho era maravilhoso! Tudo pra mim… nunca irei esquecê-lo!

Meu filho, Mauro de Melo Pires, eu te amo demais! 😭😭😭

Meu filho Gustavo Procópio

por Silvania Ap. Procópio Cruz

Sempre tive dois olhos perfeitos, um de nome Gustavo e o outro Gabriella. Desde o dia 02 de maio de 2021 não mais enxergo bem porque Deus tirou o brilho de um dos meus olhos.

Meu filho Gustavo se foi e às vezes tenho vontade de gritar, berrar para o mundo inteiro ouvir o quão é doído ficar sem a presença física dele.

Não dá, tento viver sem ele, mas estou capenga, sem uma das pernas, sem forças e com uma revolta que está me dilacerando. Não suporto mais sair à rua e ver as pessoas andando tranquilamente como se a pandemia houvesse terminado.

Não aguento ver tantos “desavisados” em bares cheios, música alta, sorrisos escandalosos e saber que meu filho não fez nada disso e contraiu o vírus. E pior, o tal vírus que foi implacável com ele, não dando-lhe nenhuma chance de sobreviver. Em uma semana ele o contraiu, foi para o CTI, intubou, teve todas as complicações possíveis e não resistiu.

Ele que foi um dos pioneiros na minha cidade em preservação, visto que, devido ser muito inteligente, inteirado dos assuntos e preocupado com o próximo, já vinha seguindo um biólogo, Atila Iamarino, e quando o vírus chegou ao Brasil e fez a primeira vítima, ele já sabia de muita coisa sobre o mesmo.

Lembro-me que eu, meu marido e ele (minha filha não morava na nossa cidade), íamos para o supermercado ou lugares estritamente necessários. As pessoas ficavam nos olhando como se fossemos uma “aberração”, visto que só nós estávamos usando máscaras.

Nada, absolutamente NADA do que comprávamos entrava em nossa casa sem que fosse tudo lavado e passado álcool, nem mesmo a roupa e sapatos entrava em casa. Chegávamos e íamos direto para o banheiro para nos lavar.

Gustavo uma vez precisou ir à oficina porque o carro estava com problemas, ele foi como um astronauta, de macacão, touca, luvas, máscara e bota, chegou a ser chacota para muitos.

Parecia uma premunição, sei lá. O cara que mais se cuidou foi sucumbido pelo que mais temia.

Não sei o que será da minha vida e da minha família. Hoje a única certeza que tenho é que não dá pra ter uma “vida”, sem um dos brilhos dos meus olhos… sem a metade do meu coração.

Meu esposo Mauro de Melo Pires

por Ângela

Perdi meu amor no dia 12/06, foi o dia mais triste da minha vida.

Ele pegou covid-19, tinha 52 anos, era saudável…

16 anos de muita cumplicidade, amizade, respeito, amor. Ele deixou nosso maior presente, nossa filha, de 13 anos.

Sinto imensamente a falta dele, mas sei que Deus tem um propósito para tudo. Serei forte… pelo nosso amor.

Sempre irei te amar, muito além do infinito.

Minha mãe Ana Maria Lorca Morgado

por Diana

O maior amor da minha vida partiu.
Algo que eu sabia que iria acontecer um dia, aconteceu cedo demais.

São essas coisas da vida que você acha também que nunca vai chegar a você. O que é ser bastante ingênua da minha parte, a pandemia.

Minha mãe, como sempre, pronta para proteger e cuidar de todos, agia como um soldado de frente. Ela era a que entrava no mercado ou que ia em qualquer lugar quando estritamente necessário.

Bom, estritamente virou uma palavra um pouco mais abrangente do que no começo da pandemia. Mas mesmo assim, se fossemos comparar com nossos outros parentes, meus pais estavam tomando os cuidados básicos para não se infectar. Assim como todos nós.

A gente achou que se a minha mãe pegasse covid, teria uma versão assintomática ou moderada. Ela mesmo disse que sua imunidade era de ferro.

Quando descobríssemos que teria sido infectada, ela teria a versão silenciosa da doença. A preocupação era meu pai que tem bronquite, asma, pressão alta, diabetes, gota, etc.

Minha mãe não tinha nenhuma comorbidade – ou tinha e a gente nunca considerou? Ela tinha uma artrite ferrenha, artrose, osteoporose. Ela também escondia alguns detalhezinhos, como sempre, para não preocupar ninguém.

Interessante o bastante, talvez seja pelo meu grande amor por ela, quando eu soube que ela tinha covid minha ansiedade foi no teto. Como imaginar algo de pior acontecendo com a minha amada mãe. O inimaginável aconteceu, 15 dias depois minha mãe se foi.

A maior dor que eu já senti e continuo sentindo.

Ela é luz. Ela trouxe alegria na vida de tantos, conhecidos, desconhecidos, amigos e amigos de amigos. Mas, principalmente, da sua família. De mim. Ana, Aninha, Dona Ana. Mulher, “bem”, mãe e avó.

Ela fará falta para mim, sua filha, para seus dois filhos, seu marido, que estavam juntos há 44 anos e sua família amada, 4 irmãs e 1 irmão. E para sua mãe, que está sofrendo intensamente com a perda da sua segunda filha.

Não só isso, ela impactou a vida de muitos. Ela era alegre e feliz com a vida, apesar de nem sempre ter sido fácil. Mas conquistou muito e nos criou com muito amor e carinho.

Ela foi uma batalhadora, uma pessoa positiva, que sabia de tudo e explicava todos os fatos com a maior confiança do mundo.

Para mim, ela é minha melhor amiga, minha companheira. Ela é minha confidente, minha autoestima fora de mim, meu ombro para chorar. Mas nesse dia, nesse dia que eu queria tanto o colo dela, era o colo que eu perdi.

Eu perdi, e ficou esse eterno vazio. Um vazio cheio de dor e saudade. De lembranças maravilhosas, mas que ao mesmo tempo eu não queria que fossem só lembranças porque eu ainda tinha tantos planos com ela.

O ano que eu vou virei mãe, é o mesmo ano que eu perdi a minha. O meu filho vai saber o quanto essa vó o amou mesmo antes dele nascer.

Mãe é eterna, é o maior amor do mundo. E nunca ninguém deveria passar pelo que estamos passando. Ela foi cedo e rápido demais.

Eu te amo, mãe, mais do que tudo.

“Por mais longe que o sol esteja, nunca deixará de brilhar. Por mais longe que você esteja, nunca deixarei de te amar.”

Minha mãe Aparecida

por Dalila

Achei que nunca iria passar por isso e, como sempre disse, não estava preparada para perder você.

Nunca achamos que vai acontecer com a gente, né?! E, de repente, a vida nos surpreende.

Dia 14 de maio, nunca mais vou esquecer dessa data. Às 3h15 da manhã foi quando tive a notícia que não iria te ver mais, que não iria mais escutar sua voz de “bom dia”, que não iria mais receber suas ligações, que não iria ouvir mais você dizer “calma, vai ficar tudo bem, ore, faça Daimoku, não há oração sem resposta”.

Foi um misto de sentimentos no qual eu não sabia lidar, eu não queria acreditar e as lágrimas rolaram… E agora, o que vai ser de mim sem você? Meu alicerce, minha companheira, minha melhor amiga, minha “Mamis poderosa”, era assim que te chamava. E como vou dar a notícia para Dani e para o meu pai… como será que vai reagir?!

Sei que no momento da sua partida eu estava sonhando com você e você me aconselhava como sempre.

Última lembrança da surpresa que fiz para você, lembra? Fui passar uns dias na sua casa, com nossa encantadora Alícia. Como conversamos até dormimos juntas e nem sabíamos que seria uma despedida. E nosso Matheus… você se foi sem vê-lo nascer, mas desde o princípio, quando descobri minha gravidez, você já dizia “nosso Matheus vem aí” kkkkk.

Me lembro da sua doçura, ternura, amor, do seu cuidado com todos… da sua inocência, não via maldade em nada e em ninguém.

Aaaah, Mamis! Como sinto sua falta! Dói, dói muito! Choro, choro, mas logo enxugo as lágrimas e sigo com o legado que você me ensinou. Às vezes penso em desistir, mas sei que você jamais aceitaria isso, então é por você que ainda vivo seguindo em frente…

Saudades eternas da minha Nê, da minha Mamis poderosa.

Meu irmão André Sabino

por Fabiana Sabino

Meu irmão ou “véi” como eu te chamo, vou escrever porque não estou conseguindo um sinal para te enviar uma mensagem. A internet não anda muito boa.

Nestes meses da sua viagem, diariamente sinto sua falta, não compreendo como você pode ter ido e me esquecido aqui. Fiquei muita brava com você.

Todas as vezes que partia para suas aventuras em sua Harley sempre me enviava as fotos, a localização. Chorei muito e ainda choro de saudade.

Esses dias eu tenho conversado muito com Deus e, apesar do nó na garganta, dessa saudade, eu me recordo de tudo que você me falava, das coisas da vida, da partida final.

“Véi”, eu não sei explicar, mas eu sei que você sabe o quanto eu sempre te amei.

Brigamos, discordamos, mas como você dizia: “Somos irmãos de outro mundo”.

Queria muito saber notícias. Esses dias sonhei com você e estava tão bem, tão tranquilo. Fomos visitar a Andressa e o Théo. Fomos visitar o Bruno e, como você não conseguia andar, eu te carreguei.

Estou triste, mas meu coração agradece a Deus por ter tido tanto cuidado com você.

Sou uma mulher abençoada, porque aqui dentro tenho histórias e lembranças que nada e ninguém poderá apagar.

Cara, se cuida e cuidado com as curvas, acelera menos e, quando der, te espero em meus sonhos para matar um pouco essas saudade.

O que eu te prometi e tudo o que você me disse eu vou seguir.

Fica com Deus, mano! Fica com Deus!

Meu pai Jailton Moura Gomes

por Luciana S. Gomes

Tive a sorte de ter meu pai na minha vida.
Alguém que me amava da maneira mais pura, intensa e leal que se pode amar uma filha.

Só Deus e nós sabemos o que fomos um para o outro.

Meu pai Pedro

por RFL

Perdi meu amado pai para a covid-19 em fevereiro de 2021, no início da pandemia.

Até o início desse ano essa doença não chegava tão próximo de nós, tinha alguns relatos de alguns amigos que pegaram mais sempre se curavam.

Até então eu brincava bastante com a situação, mas nunca duvidei da gravidade. Acho que era um mecanismo de defesa pelo momento que estamos passando, como sempre nos protegemos e tal…

Eu sabia que se isso chegasse em nós meu pai teria o maior risco, pois já fez operação cardíaca e tinha pressão alta. E, então, ele pegou no trabalho.

Os piores dias da minha vida tinham se instalado… Meu pai, minha mãe, eu e minha noiva, todos infectados. Apenas meu pai teve a piora e faleceu.

Eu era apegado demais a ele, era meu melhor amigo. Eu com 26 anos gostava de ser aquela criança do pai, sabe?

Posso dizer que aproveitei meu pai ao máximo, mas parece que foi tão pouco agora.

Eu pegava no pé dele para se cuidar, falava das carnes gordurosas, da cerveja, para fazer exercícios, mas parece tão irrelevante agora. Poderia ter sido menos desesperado nessa parte, mas quem saberia que ele seria levado por algo assim, né?

Minha mãe diz que a missão dele foi cumprida, que ele já cuidou da gente, muito bem por sinal.

Que pai eu tive, não tenho nem palavras pra expressar isso! Só tenho a agradecer do fundo do meu coração por ter tido ele como meu pai.

Minha mãe é religiosa, também somos católicos, então ela consegue buscar um conforto nessa parte, mas eu comecei a ter minhas dúvidas sobre tudo. Raiva por ter acontecido, na real não sei nem o que pensar, mas acho que todos que passam por isso têm esses pensamentos. Frequentemente me pego chorando por músicas, fotos ou pensamentos mesmo.

Eu tive problemas psicológicos, ansiedade, síndrome do pânico. Passei por psicóloga e psiquiatra, mas já tive alta. Agora estou tentando largar os remédios.

Agora estou tentando seguir em frente junto com minha amada mãe, irmão e minha noiva, mas ainda não consigo me ver em um mundo sem meu pai. Só a presença dele me acalma, o jeito me confortava…

Tá difícil, todos os dias eu choro e faço aquela pergunta: Por que? Por que com a gente?

Já passamos algumas dificuldades, de até perder uma casa. Agora que ele conquistou a casinha DELE, acontece isso. Esse mundo é louco e sem meu pai me dá medo.

Não sei me expressar bem nas palavras, mas pai, você se foi e um vazio imenso se abriu em mim. Vou tentar de alguma forma amenizar isso, então se existir algo depois de nossa jornada da terra, meu desejo é te ver de novo. Cuida de mim, do mano, da mamãe e da nega, e da cacau, sua princesinha…

Você faz uma enorme falta, meu amado pai. Espero que isso seja só um “até breve”, é o que eu tento acreditar…

Se alguém tiver algumas opções de leitura para que eu possa entender o que vem depois… quem sabe eu consigo buscar algum conforto.

Até breve, meu querido pai, eu te amo ❤️

Meu esposo Márcio

por Adriana

Hoje faz 16 dias que perdi meu companheiro pra esse maldito vírus!

Era meu amigo, meu confidente, amor da minha vida… minha melhor escolha. O melhor pai que nossa pequena Ana Luísa (6 anos) poderia ter… quanto amor e dedicação à ela e à nossa família.

Meu Márcio tinha apenas 46 anos e sem comorbidades. Os médicos estavam confiantes sobre a recuperação dele. Tínhamos esperança, rezamos, oramos dia e noite pra ele sair daquele hospital, mas o vírus foi mais forte.

Ainda tem muita dor, questionamentos, me sinto caindo num abismo. É de uma violência assustadora essa doença…

Não consegui ainda voltar para o nosso apartamento, quando penso em viver lá sem ele me dá um aperto no peito, um frio na espinha… sensação de vazio, medo, insegurança, tristeza.

Apesar da rede de apoio da família e dos amigos, me sinto sozinha na multidão.

Vivemos juntos os melhores 19 anos de nossas vidas, mas ainda tínhamos muita vida pra viver e construir, muitos planos… e isso me rasga o peito.

Não consigo ainda processar essa realidade… é inacreditável…ele está muito vivo…

Nossa filha tem chorado todos os dias com saudades do “papá” dela e fico sem saber o que fazer. Dói na minha alma.

Tô esperando a passagem do tempo que todos dizem ser o remédio para essa dor, que por hora me dilacera diariamente.

Meu filho Gustavo Procópio Cruz

por Silvania A. Procópio Cruz

Meu filho, hoje gostaria de escrever essas palavras como se as mesmas pudessem chegar até você, sei lá, estou sufocada de saudade.

Sinto a sua presença, vejo seu sorriso, sinto os seus abraços, seus beijos, suas mordidas na bochecha que tanto me irritavam, (hoje daria tudo para tê-las).

Você continua muito vivo aqui em casa, tanto que até conversamos com você. Outro dia te gritei em prantos, não me respondeu e o silêncio que se fez me transtornou tanto que as lágrimas me sufocaram se transformando num terrível lamento.

Gritei alto o quão desumano é a perda de um filho. Como disse bem o Padre Fábio de Melo, é um parto às avessas, é dor tamanha que chega a ser desumana.

Não sei como será a vida aqui em casa sem você, porque sempre sonhamos juntos, sempre partilhamos tudo e você nos deixou.

Nesses últimos dias, tenho sentido muita raiva por eu ter adoecido antes de você e não ter estado presente para te cuidar, fazer as sopinhas que tanto gostava, medir sua temperatura, pedir para descansar que eu cuidaria de tudo. Não, eu não pude porque esse vírus infeliz havia se apoderado também de mim.

Não te acompanhei ao hospital, não cuidei de você como toda vez que adoecia, sinto que a vida me ficou devendo essa.

Estamos órfãos, Gustavo, eu, seu pai, sua irmã, sua noiva, seus tios e tias, primos, amigos, alunos. Como faz falta para todos nós.

Após sua partida tenho tentado aprender e entender sobre a morte e não a vejo mais como uma punição, vejo-a como uma passagem, um bilhete para quem vai embarcar na grande viagem para a vida eterna.

Não tenho mais medo e quero que saiba que quando for o meu momento, quero estar pronta para embarcar, certa de que nos encontraremos. Por enquanto ficarei aqui, saudosa, com o coração dilacerado por sua ausência.

Até breve, adeus.

Meu marido Luís Cláudio

por Lu

Saudade da companhia, do carinho, da presença. Fazíamos quase tudo juntos, principalmente nos finais de semana.

Minha esposa Nicele Carvalho

por Wander Carvalho

Minha esposa era a motivação que eu tinha para viver. Minha companheira para tudo. Conselheira, amiga e super orgulhosa pela forma em que levávamos nosso casamento. Uma mulher rara de se encontrar hoje em dia.

Ela tinha apenas 40 anos… Faz pouco mais de um mês que ela se foi e não consigo mais tocar minha vida a diante.

Não tínhamos filhos e vivíamos um para o outro. Completaríamos esse ano 14 anos de casados, mas nossa relação já tinha mais de vinte anos e nos conhecíamos desde a infância.

Está sendo bem difícil para eu seguir em frente. Não consigo retornar à nossa casa, que construímos juntos há 10 anos, e ainda não consegui retornar ao trabalho. Ela me ajudava e frequentava meu local de trabalho. Nós tínhamos planos futuros de trabalharmos juntos.

Eu perdi minha razão de viver, o motivo pelo qual acordava todas as manhãs para trabalhar e trazer conforto para ela. Uma mulher jovem e cheia de vida.

Hoje escrevo isso com lágrima nos olhos e incerto de como será minha vida daqui pra frente.

Minha mãe Maria José Chagas – Novinha

por Lany

Mainha, morava sozinha em Bayeux. Era alegre, evangélica, fiel, temente a Deus. A gente sempre se comunicava pelo WhatsApp, sempre pedia para mim e para meu irmão para tomar cuidado com essa doença.

Adoeceu, era apenas uma tosse, nada demais segundo ela. Tosse que durou 8 dias, mas por querer seguir quarentena não foi ao médico. Ficou em casa isolada, pois os mesmos diziam que só procurassem o médico caso faltasse “ar”. Obs: Nunca faça isso, isso pode matar, qualquer sinal estranho é melhor ir ao médico mesmo.

8 dias sem atendimento e uma pequena tosse custou a vida da minha mãe.

Ela, para não preocupar eu e meu irmão, impediu as amigas próximas de nos contar como ela estava. Após os 8 dias, às 6h30 da manhã, ela pediu socorro pelo “zap” para uma amiga: “Me socorre, estou com falta de ar, não me deixa morrer aqui não”.

Às 11h, com medo de chegar perto, retornaram, daí não foram lá. Ligaram pra o SAMU, que veio e a levou. Às 14h10 chegou na UPA, não tivemos mais nenhum contato com ela. Uma certa preocupação, sem respostas, ligo para meu irmão. Ela seria transferida após exames, e daí na mesma noite foi para o Frei Damião, em João Pessoa.

No dia seguinte as noticias ruins começaram a chegar. Foi transferida de sala pela manhã, final da tarde foi intubada, saturação baixa. Não poderia ser transferida pra UTI, ficou na semi-intensiva. No outro dia, estava com 50% do pulmão comprometido. No outro dia, os rins pararam. Tinha que fazer hemodiálise, mas não conseguia, pois não podia tirar o tubo.

Conseguiu ir para a UTI. No outro dia, o fígado e o outro pulmão também estavam afetados. No outro dia, nenhuma melhora, saturação muito baixa. A informação médica era que ela estava mais para óbito do que melhora. No dia seguinte o médico mandou chamar eu e meu irmão.

Essa doença é triste, a forma como se vai são diversas. Que cada um possa se cuidar ao máximo e que Deus nos ajude grandiosamente a passar essa perda terrível.

Força para todos nós, pois é muito difícil todos os dias. Mainha não me sai do pensamento, toda hora, todo instante. A gente chora ao deitar e chora ao levantar.

Graças a Deus esse projeto foi uma luz na minha vida, estou superando.

Minha mãe Fátima Ruiz dos Santos

por Oficial

No dia 07 de Fevereiro desse ano minha mãe não estava muito bem. Levei ela no Pronto Socorro, a médica disse que era apenas uma fase gripal, deu 2 injeções pra ela e voltamos pra casa. Passaram alguns dias e ela foi piorando, não conseguia comer nada.

Minha irmã me ligou e pediu para levar a mãe porque ela não estava nada bem. Aí na quinta-feira levei ela direto na parte de covid. Fez os exames, ficou no oxigênio um pouco. No momento não constou positivo, mas o médico insistiu pra ela ficar internada pois o raio-x e a saturação dela demonstrava que seria o vírus.

Ela não conseguia comer nada, mas ela não aceitava dizer que era esse vírus maldito. Ela ficou apavorada disse que não queria ficar e eu estava ali para decidir se a deixava ou não. Ela falou: “Eu não estou com essa doença. Se eu ficar aqui, vou pegar e morrer.”

Que momento difícil para mim, que desespero, mas a enfermeira decidiu pois a saturação dela estava caindo. Ela ficou deitada com a cabeça no meu ombro, chorando.

Enquanto isso, prepararam o leito dela. Pedi para ela sentar no banco pra descansar, quando a enfermeira chamou e ela disse pra mim: “Marisa, estou indo”. Não deixaram nem eu me despedir dela. Fui embora, mas com uma esperança que logo ela melhorasse, só que foi tudo ao contrário.

Depois de 3 dias já intubaram ela, depois foi transferida para um hospital. Ficou intubada e sedada por 17 dias. Quando eles conseguiram extubar ela, foi a maior alegria nas nossas vidas. Voltou só a usar a máscara oxigenação.

Depois de 4 dias teve complicações e foi intubada de novo. Logo depois fez traqueostomia. Estava seguindo em frente, mas ela não acordava. Mexia as mãos, mas não abria os olhos. Aí os médicos começaram a tirar a sedação dela e na madrugada do dia 10 de abril, às 5h da manhã, ela teve uma parada cardíaca e não resistiu.

Só tinha 67 anos, não tinha problemas grave de saúde, mas esse vírus tirou a metade da minha vida e o meu coração está despedaçado. Fiquei sabendo às 9h30 da manhã. O meu mundo acabou, uma dor insuportável. Uma revolta tão grande, pois já ficamos sem nos ver por 29 dias e não pude vê-lá nem no momento de despedida. Não sei se ali naquele caixão era ela que enterramos.

Depois comecei a ter sentimento de culpa. Não fui eu que levei a doença pra ela, mas culpa por ter deixado ela lá no hospital. Penso que se tivesse trazido de volta pra casa, ela não tinha morrido. É uma culpa que penso às vezes que vou enlouquecer.

Estou nesse projeto e minha psicóloga Patrícia Serrano tem me ajudado muito, pois ela me entende. Minha família só sabe dizer que eu só posso sentir saudades e falta dela, mas jamais culpa. Mas não consigo, pois as últimas palavras da minha rainha foi: “Não quero ficar aqui”, e eu a deixei.

Sinto que deixei ela para morrer, às vezes penso que vou não vou conseguir superar. Ela não merecia morrer dessa forma, lutou tanto, sabe?! Sempre foi uma mulher forte, uma mulher de Deus, humilde e com um lindo coração.

Hoje já faz 3 meses que ela se foi, a dor aumenta a cada dia, a falta dela, as saudades… não tem explicação. Mãe, minha rainha, exemplo de mulher, te amarei eternamente, pois nunca vou esquecer cada momento que vivemos juntos. Um dia nos encontraremos na Glória, na eternidade.

Te amo eternamente, mãe.

Minha irmã Valdene Esteves dos Reis

por Elizene

No dia 24/05/21, minha irmã, 44 anos, fez o teste e deu positivo. Saiu do serviço e foi direto para casa, seus filhos gêmeos de 23 anos e seu marido fizeram o teste e deu negativo.

Ela se isolou no quarto já sentindo fortes dores, mas até então o médico que a acompanhava disse que eram sintomas comuns da covid-19. No domingo seguinte ele a visitou em casa e achou melhor levá-la para o hospital, pois sua saturação já estava ficando baixa e a dificuldade de respirar estava aumentando.

Minha irmã sempre tomou muito cuidado, nossa família sempre tomou, não dá para explicar como esse vírus a contaminou. Ela estava com muito medo de ir para o hospital, medo de ir e não voltar. Mas o melhor a se fazer era ir para se tratar e melhorar.

Uma semana no quarto do hospital, sempre com o oxigênio, já não levantava mais e a situação só piorava. Ela conversava comigo pelo celular mas sempre muito cansada, dizia que estava insuportável.

Após uma semana no quarto o médico disse que teria que levá-la para o CTI. Ela foi intubada no dia 30/05. Mesmo assim nós ainda tínhamos esperança, afinal muita gente tem se recuperado após o CTI.

Eu sempre recebia as ligações dos médicos. Todo dia era um martírio e quando ligavam só diziam que o caso era grave. Os pulmões já estavam com mais de 70% comprometidos, era gravíssimo, o oxigênio sempre em 100%, ela não reagia aos medicamentos.

Até que no dia 19/06, às 3h18, meu celular tocou e a notícia era a que eu mais temia. Minha irmã foi embora. Ela era cheia de vida, não tinha problema nenhum de saúde, o vírus foi mais forte do que ela.

Nosso pesadelo começou. O dia do enterro é muito ruim, não temos a despedida, aquele último adeus, o último toque. Minha irmã foi embora no dia 19/06/21, mas já tinha um mês que eu não a via. A covid nos tira a pessoa antes mesmo dela partir.

A minha irmã, a minha melhor amiga, foi embora para nunca mais voltar. E agora ficamos eu, minha mãe de 71 anos e meus sobrinhos. Me sinto muito responsável por eles e estou tentando fazer o meu melhor em tudo.

A dor é muito grande, tenho a sensação de que só piora com o tempo. Estou com muito medo do tempo, da falta dela na minha vida a partir de agora. Não poder contar com a presença física dela nos melhores e nos piores momentos da minha vida.

Sei que preciso continuar por mim e por eles, mas a dor em certos momentos chega a ser insuportável. Nós a amaremos sempre, sua ausência é muito dolorosa. Só Deus pode nos confortar e nos dar força para seguir em frente.

Minha mãe Maria Genivalda

por Elis

Participei do programa e fui atendida por uma psicóloga maravilhosa que me mostrou um norte.

Minha mãe se foi, mas continua sendo uma parte de mim… eu vou sentir saudades, vou chorar e vou sofrer e tudo bem, pois eu a amava e é normal sentir tudo isso. E vou sorrir ao lembrar de nossos momentos.

Obrigada ao programa e toda a equipe. Especialmente a psicóloga Carolina que me atendeu.

Gratidão!!!

Meu filho Gabriel Souza Soares

por Marcia Maria Machado Souza

Compartilho com vocês as memórias do meu filho, companheiro, meu amor…

Gabriel tinha 26 anos, era professor, mestrando em letras. Morávamos somente nós dois há quase 8 anos. Um menino doce, de sorriso fácil que encantava a todos a sua volta. Cheio de sonhos, sonhava grande e lutava, trabalhava muito para aos poucos realizá-los.

No começo de 2020, quando começou essa pandemia, começamos a ficar com muito medo, eu por ser cardiopata e ele em se infectar e me infectar, sabendo do meu alto grau de comorbidade. Gabriel passou o ano dando aulas remotas, não saia de jeito nenhum, eu ainda saia em casos de extrema necessidade. Ele sempre falava: “Mainha, se eu for infectado, tenho certeza que não resisto.”

2020 passou e conversávamos que aquele teria sido o pior ano de nossas vidas, cheio de medo e incertezas. Chega 2021 e com ele a esperança da vacina e que aos poucos as coisas ficassem mais controladas.

Dia 23 de janeiro foi seu aniversário. Neste dia, senti seu olhar distante olhando para o bolinho que preparei para você com tanto amor e carinho, parecia que você estava sentindo que seria seu último aniversário. Em fevereiro saiu um decreto do governo liberando as escolas para aulas presenciais, mais uma vez vi no seu olhar o medo, ficamos apavorados com a decisão que teria que voltar à sala de aula sem vacina, sem segurança.

Você me falou: “Mainha, estou com muito medo dessa volta precoce, sinto que não é o momento”. Eu lhe pedi que não voltasse, que pedisse demissão, dávamos um jeito. Mas ele disse: “Não posso, mainha, nessa crise pedir demissão, vou encarar.”

As aulas voltaram no dia 08/02/2021, no dia 21/02/2021 Gabriel foi infectado. Começou com muita febre e dores no corpo. Por 3 vezes fomos para urgência, fizemos o teste juntos porque eu ainda não acreditava, com 5 dias saiu o resultado, ele positivo, eu negativo. Ele disse: “Eu sabia, mainha”.

E nessas idas e vindas para urgência, na terceira vez, já o levei quase sem ar, nem sei como conseguimos chegar. Ele chegou com a saturação muito baixa e depois de quase 3 horas no oxigênio sua saturação continuava muito baixa, veio a médica e me informou que ele iria ficar internado.

Que dor senti naquele momento, meu Deus. Voltar para casa sem você… quando o vi saindo em direção a enfermaria, corri para seus braços. Você estava queimando de febre, te abracei e fiquei quietinha deitada em seu peito dizendo baixinho o quanto o amava e que você iria sair daquela situação. E você, mesmo de máscara, dizia: “Também te amo, mainha, mas saia de perto de mim”. E quanto mais você pedia, mais te abraçava forte.

Não saia da porta da urgência a espera de notícias, mal vinha para casa tomar banho e voltava, ficava do lado de fora, esperando alguém me trazer noticias. No terceiro dia que estava internado, no momento em que vim em casa tomar um banho, ligaram para mim da urgência dizendo que você tinha piorado e que pediu para ser intubado porque já não aguentava mais de tanta agonia que sentia devido a falta de ar. A partir daí ficou tudo ainda mais doloroso.

Conseguiram uma transferência para UTI. Sua mainha lutou para me deixarem entrar para te ver, e consegui. Assinei um termo de responsabilidade e entrava 2 vezes por semana para te ver, conversar com você e falar do nosso amor… dizia: “seja forte e corajoso”, no seu ouvido. Por 2 vezes você chorou, mainha sentiu que você estava me ouvindo.

Nessa luta você ficou 23 dias. Na véspera da minha visita, o hospital me ligou pedindo que fosse urgente até lá e levasse seu documento. Meu mundo desabou naquele instante. Quando cheguei no hospital a chefe da UTI me deu a triste noticia que você havia tido uma parada cardíaca e não resistiu.

Hoje, dia 30/06/2021, faz 3 meses que você partiu tão precocemente. Sua ausência é muito dolorosa, às vezes sinto que não vou suportar tanta dor. Eu sei, meu amor, que você nunca gostou de me ver triste, mas a falta que você me faz é muito grande.

Penso em você todos os dias e assim será até o fim. Te amo pra sempre, minha pessoa… meu amor… O único e eterno amor da minha vida!

Meu pai João de Fátima do Monte

por William Roberto Alkema do Monte

Perdi meu pai para essa doença terrível no dia 20 de maio de 2021.

A vida já estava muito difícil após mais de um ano de pandemia e muitas vidas sendo ceifadas, mas nunca imaginei que chegaria à minha família.

Meu pai morava com a minha mãe e meu irmão, que testou positivo para a COVID no dia 29 de abril.

Não dá pra dizer se meu pai foi contaminado enquanto meu irmão ainda estava sem sintomas, mas apesar de todas as medidas adotadas desde que os sintomas apareceram, meu pai testou positivo no dia 7 de maio.

Fiquei muito preocupado, pois ele era paciente renal crônico e cardiopata. Seus sintomas foram até leves, dor de garganta e febre não muito alta, mas a saturação baixou um pouco no dia 15 e minha mãe o levou ao hospital.

No dia seguinte ele me mandou mensagem dizendo que estava bem melhor, e respirei aliviado. Estava apenas na enfermaria, recebendo oxigênio e medicação. Alimentava-se bem e dormia melhor, coisa que não estava conseguindo em casa, pois estava muito nervoso.

A cada dia as notícias melhoravam, saturação aumentava aos poucos, pulmões quase limpos. No dia 18 (terça-feira) estava super bem. Porém, no dia seguinte (quarta-feira, 19), não conseguíamos nos comunicar direito com ele, que apenas enviou uma mensagem de manhã e uma à tarde, dizendo que estava de bruços e que a saturação estava 96. Então ficamos aliviados, e dormimos em paz.

Mas na quinta-feira (dia 20), minha mãe me ligou por volta das 10h muito nervosa, dizendo que haviam ligado do hospital para que ela fosse para lá, e ela me pediu que a acompanhasse. Já fiquei muito apreensivo, mas imaginei que pudesse ser a alta dele. Minha mãe entrou primeiro e fiquei orando lá fora. Uns minutos depois, uma moça se apresentou como assistente social e pediu pra que eu entrasse com ela. Com isso, já sabia que o pior havia acontecido. Minha mãe me disse: “Papai faleceu”.

Passei mal, me sentei na cadeira. O médico e o enfermeiro explicaram que durante a noite a saturação começou a cair drasticamente. Ele teve que ser intubado e teve duas paradas cardíacas, mas conseguiram reanimá-lo. Às 9h35, porém, teve outra parada e não resistiu.

Eu e minha mãe pudemos nos despedir dele com todas as medidas sanitárias, mas não houve velório. Meu irmão e minha esposa não puderam vê-lo. Eu já não via meu pai há mais de um mês por conta do isolamento. O sepultamento foi algo muito estranho, estávamos anestesiados.

Já se passou um mês e minha dor não diminui. Acho que o fato de a pandemia ser um assunto inevitável só piora o nosso luto. E me sinto impotente, foi tudo muito rápido, muito inesperado, porque tudo parecia correr bem em sua recuperação.

Um sentimento de culpa também acaba me consumindo por vezes… Apesar de todo o cuidado, toda a orientação que tentei dar, como tudo isso foi acontecer? Ele havia tomado a primeira dose da vacina há poucos dias, minha mãe já está vacinada e meu irmão conseguiu sua primeira dose semana passada por conta de sua deficiência intelectual. Assim, fica em mim o sentimento de que foi um azar tremendo, pois o atraso da vacinação em dois meses pode ter custado a vida de meu pai.

O sofrimento já era grande antes do seu falecimento, mas só pensava no momento em que tudo voltaria ao normal e poderia visitar meus pais sem medo, abraçá-los. Tudo isso foi destruído, e agora tento aceitar a realidade e seguir em frente, mas está bem difícil. Ele queria tanto um neto e não pude oferecer isso a ele. Tenho baixa fertilidade e o procedimento de fertilização feito em março desse ano não foi bem sucedido.

Quero acreditar que ele está com Deus preparando seu neto, mesmo que fisicamente ele não possa estar presente.

Te amo meu pai, sua ausência é muito dolorosa.

Meu filho Gustavo Procópio Cruz

por Silvania Procópio Cruz

Eu e meu marido contraímos covid. No dia 14 de abril fizemos o teste, os quais deram positivo. E o teste do nosso filho Gustavo deu negativo.

No dia 19 de abril fui hospitalizada e Gustavo ficou cuidando o pai (não teve medo de pegar a doença). Foi então que começou a tossir muito e no dia 23 de abril também foi hospitalizado. No dia seguinte, meu marido.

Ainda hospitalizada, fui visitar Gustavo no quarto dele. Estava tranquilo, apenas com um catéter. Estava conversando normalmente e meu marido também. Pensei que ganharíamos alta juntos.

No dia 25 ganhei alta e Gustavo e meu marido ficaram. O caso do Gustavo começou a agravar e ele teve que ir para o CTI na terça-feira e no dia seguinte foi intubado.

Meu marido ganhou alta na quinta-feira e ficamos de casa torcendo pela recuperação de Gustavo, porém o caso só foi agravando. Ele teve trombose no braço direito, pegou infecção hospitalar, teve problema no coração e no domingo, ele não resistiu e faleceu.

Ficamos aqui, eu, meu marido e minha filha, sem chão, com uma dor imensa que dilacera a alma, mas decidimos seguir e viver, por nós e por ele, que amava a vida, amava os amigos e o próximo, pois fazia muita caridade e ajudava muito as pessoas mesmo sendo tão jovem.

Ele partiu mas deixou um legado de luta e de paz. Viveremos para honrar o nome dele.

Meu companheiro Thalles Damasceno dos Santos

por Adriana Ramos

Le, depois que você se foi, eu te procurei por todos os lugares, nas lembranças guardadas em emails, textos no celular, cartões, fotos… mas nada cessa essa dor, que agora é uma saudade infinita.

Dentre tudo que procurei, o que mais me confortou foi um textinho de quando começamos a namorar. Você não escrevia muito, mas nesse texto tem que eu era a pessoa que você queria passar o resto da vida e que daria ela para mim.

Realmente, você viveu sua vida toda comigo e eu carregarei o seu amor eternamente, como sempre te falava.

Você se foi fisicamente aos 33 anos de idade. Só faz 16 anos que estávamos juntos, 19 anos desde o primeiro ker_tc, numa sala de bate papo pela internet.

Eu te amo um tantão assim, como no coração de pelúcia que você me deu… te amo.

Saudades.

Meu pai Valentim

por Dai

Pai,
Como você está, meu amor?

Eu sinto tanto a sua falta. Tem dias que a dor é tanta que não consigo sair do lugar. E eu sei, eu sei que você nunca gostou de me ver triste, mas você era tão incrível. Tão bom, puro de coração. É inevitável pensar o quanto isso é injusto.

Você partiu dia 10.08.2020.
Exatamente um dia depois do dia dos pais. Foram 27 dias na UTI, intubado. Lutando pela vida, lutando contra esse vírus. Logo você, meu amor, cheio de vida, de amor, de alegria, de bondade. Totalmente saudável, com nenhuma comorbidade, 53 anos.

Como dói. Não sei explicar.
Me pergunto porque a vida tem que ser assim.

A melhor pessoa sempre foi você! Eu dizia para todos “meu pai é o CARA”.

Todos te amavam, você salvou vidas meu amor! Você ajudou tantas pessoas sem pedir nada em troca, você é inspiração. E que orgulho ter você como meu pai.

A nossa conexão vai além dessa vida. Eu te amo pra sempre, meu patolino.

Meu irmão Wanderley

Por Oficial

Wanderley era meu irmão, amigo.

Ele era professor de geografia, matemática e sabia muito de política. Era saudável, não tinha doenças, só tinha 56 anos. Seus alunos o adoravam! Torcedor do Juventus e do Corinthians, adorava fazer ginástica.

Ele era meu exemplo de vida! Nunca vou te esquecer, meu irmão querido!

Meu pai Juraci Joaquim de Souza – Russo

por Juliana Barbosa de Souza Andrade

Meu pai toda vida trabalhou para tentar dar o melhor para os filhos, que são três comigo. Quando mais nova era seu xodó. Ele me embrulhava para dormir e, quando tinha medo à noite, eu ia para seu quarto para dormir com ele e minha mãe. Quando não, eu só precisava ouvir seu ronco e ficava tranquila.

Sempre fez tudo por nós. Tudo!

Minha mãe era tudo para ele e suas netas, que são minhas filhas, ele era apaixonado. Fazia muitos planos.

Nós que não demos a devida atenção. Sei que não fui a filha que ele sempre sonhou, mas estava quase me formando… faltava só um ano para ele me ver formada, mas não deu. Ele se foi por causa da covid…

Foi internado na sexta e intubado. No sábado foi para UTI e domingo, dia das mães, às 8h01, ele se foi 😞

Estou com um sentimento horrível, nunca me senti tão triste. Quero que o senhor descanse em paz junto do nosso criador.

Pai, eu te amo. Queria te mandar mensagem de boa noite e bom dia, mas agora não dá…. Tristeza me define.

Minha mãe Simone

por Loris

Havia 7 anos que eu e minha mãe não nos víamos, ela morava em Portugal há 15 anos e, quando resolveu passar férias com a gente aqui no Brasil, foi um sonho para nossa família. Tudo ia bem, viagem e muitas reuniões de família, mas em abril dias antes do meu aniversário ela começou a sentir os sintomas da covid-19.

Passamos meu aniversário tomando medicação no hospital, nessa altura eu também havia me contaminado. No dia 24/04/21 ela foi internada, foi um susto para todos nós e exatamente no dia 29/04/21, depois de ser intubada e com mais de 90% do pulmão comprometido, minha mãezinha, sem nenhuma doença crônica e com 51 anos, faleceu.

Passei a madrugada com febre procurando uma funerária e cemitério. Que dor, que revolta, que angústia. Como avisar minha família, minha irmã e padrasto em outro país?!

Não pude nem receber um abraço ou conforto de ninguém pois estava contaminada. Foi e tem sido os piores dias da minha vida, busco forças na minha família, leio, medito, choro e grito. Tento ser forte e lutar contra a dor, principalmente para dar apoio a minha irmã que está longe.

Escrever me ajuda a superar ❤️

Minha mãe Maria José Chagas – Nalvinha

por Meri

Mainha, eu ainda não consegui sentir saudade, eu sinto raiva, eu sinto revolta.

A gente morava em estados diferentes, ela morreu dessa doença maldita, por falta de socorro, sozinha, ela não teve socorro.

Começou com uma tosse, depois perda de paladar e sem sentir cheiro, seguiu as recomendações de ficar em quarentena, só procurar o médico se sentisse falta de ar. Passaram-se 8 dias, ninguém a orientou que aquela tosse era diferente e deveria procurar o médico. No décimo dia ela pedia socorro para as amigas e ninguém apareceu, ninguém podia ir por medo dessa doença.

A mensagem dela às 6h34 da manhã do dia 27/05/21: “Socorro, meu ar tá indo embora não me deixa morrer aqui”. Deu 11 horas e ninguém apareceu. Ela pediu socorro a outra pessoa que nada fez. Às 13h30 ela conseguiu que alguém chamasse o SAMU e aí ela já chegou mal no hospital, e eu não estava sabendo de nada.

Quando falei com ela dizendo que eu iria lá, ela disse que eu não fosse pois não iria encontrar ela em casa, pois ela estava acabando de chegar na UPA. Foi sua última vez que ouvi ela no “zap”. Daí em diante todos os dias só noticias ruins de piora, e cinco dias depois o médico chamou eu e meu irmão pra falar de seu falecimento.

Eu ainda não consegui sentir a falta porque meu coração não aceita sua partida, a falta de socorro. Ela poderia ter me ligado e dito sobre essa tosse, com certeza eu a faria procurar o médico e ela se cuidar no inicio nada disso teria acontecido.

Hoje eu não consigo comer, vivo sentindo uma agonia no peito, sensação de que vou apagar, medo de pegar esse vírus, vejo coisas, penso que ela não se foi. Penso no túmulo, se essa chuva não tá estragando o cimento, eu não estou lá para vigiar.

Eu não vi minha mãe, não tenho certeza de nada, vivo com dor de cabeça, choro, todo tempo sinto angustia, durmo e acordo pensando que na falta de socorro a ela.

Meu pai Sérgio de Andrade Luiz

por Thais Porto

Meu pai, o senhor se foi… E agora? Estou perdida e sem chão 😥

Como eu sofri desde o dia que soube. E o senhor sempre dizendo “tá tudo bem”, só pedia para eu orar e que estava longe para me proteger. Não conseguia ligar porque chorava muito, mas mandava mensagem toda hora no “zap” e queria saber como estava.

Pai, ontem, dia 14/05, fez 15 dias sem você e ainda não consigo acreditar. As últimas fotos no “zap” você estava bem e, como não pude velar e nem ver, não consigo acreditar que se foi.

Morávamos no Rio e vim para Campos com 15 anos para ficar com senhor. Nunca comprei nada para mim, sempre era o senhor comprava tudo para me agradar. Me ensinou a cozinhar, lavar, passar, enfim, tudo o que sou hoje. Além de ser honesta, forte, sincera e amiga como o senhor.

Sempre me apoiou em tudo, sempre me aconselhou em tudo, assim como sempre me abraçou e me beijou. Sempre me deu carinho, me amou e me ensinou tudo.

Quem vai me elogiar nas comidas? Quem vai me aconselhar? Quem vai me abraçar quando preciso? Quem vai me apoiar nas minhas decisões?

Estou sem rumo pai, você era o meu ponto de referência e agora meu GPS está sem rota. 😵

Como foi embora cedo, com apenas 51 anos e muita força e vida?! Por que essa doença maldita te pegou?! 😢

Só pedia a Deus para olhar seu coração e que era do bem, ajudava a todos que precisavam e acreditava muito em Deus, mas era “na sua”.

Te amo, meu pai, para sempre. Vou continuar fazendo tudo na minha vida para te orgulhar.

Sempre quis 4 filhos e conseguiu, como nós te amamos, meu pai. Eu, Lara, Caio e Liz vamos te orgulhar muito e vamos dedicar a sua garra e força em tudo 💖

Descansa em paz, meu primeiro amor… Vamos nos encontrar quando chegar a minha hora. 😭💖

Meu pai Miguel, minha avó Dirce

por Lene

Meu pai, 66 anos, diabético.
Querido se foi e, 3 dias depois, minha avó (83) se foi também.

Pior de tudo foi o fato de ter pego o vírus da gente.

Meu pai, meu amigo, companheiro, confidente. Fazia tudo por ele, cortava suas sobrancelhas e era sua podóloga 😍, levava ao médico, cinema, parques e igreja comigo!

Está doendo muito sua partida, meu amor! Até agora estou em choque. Sempre fiz tudo por você e de repente não pude fazer nada😢. Nem te cuidar, nem segurar sua mão, nem me despedir e nem poder velar você!

Seu amor está aqui para sempre no meu coração.

Meu pai Danizete Aparecido Barbosa

por Amanda Barbosa

Pai ❤️

Sinto sua falta em toda parte! A saudade é agora meu gênero de vida, porque você, meu querido pai, representa tudo para mim.

Desde que se foi, tenho tentado reaprender a viver, tenho conquistado meu caminho bem devagar. Sinto que esse luto nunca vai terminar completamente!

Onde você estiver, pode ter certeza que meu orgulho e admiração não conhecem fim. Ser sua filha é o maior presente que a vida me ofereceu!

Pai te amo!!! 😭

Minha irmã Antônia Simon Encinez

por Rosalina Simon

Eu e minha irmã sempre preparávamos a ceia de Natal juntas e enquanto fazíamos isso ela me disse: “Fia, eu sei que vou morrer, não vou fazer 60 anos”. (Completaria em 04/02/21).

Passamos o Natal juntas e ela foi embora, depois me disse que estava com febre. No dia 28/12 começou a passar mal. Os filhos a levaram ao posto de saúde, onde disseram ser desidratação. Ela voltou para casa e continuou passando mal.

No dia seguinte foram ao hospital, onde foi diagnosticada infecção urinária. Passaram antibióticos e mesmo assim não havia melhora. No dia 31/12 piorou muito e teve de ser levada desmaiada ao hospital.

Já havia sido feito teste da covid, foi colocada no setor de covid e daí pra frente só piorou rapidamente. O teste deu negativo, mas mesmo assim continuou no setor de covid. O médico disse que ela entrou sem e sairia com covid.

A infecção não baixava, os rins pararam, tentaram fazer hemodiálise, mas não deu certo. Foi diagnosticada sepse. Nada podíamos fazer, só esperar o médico dizer o que acontecia e cada vez era pior. Até que no dia 05/01/21 veio o telefonema que tanto temíamos, ela se foi, levando consigo uma parte de mim.

Éramos almas gêmeas, não consigo acreditar que ela se foi. Tínhamos um combinado que envelheceríamos juntas, uma cuidando da outra… não foi possível.

Sinto muito sua falta!

Minha mãe Terezinha Corina da Silva

por Fabiana Corina

Mãe, alguns dias estávamos todos juntos e a vida parecia infinita.

Então tivemos que nos separar de forma repentina e não tivemos a chance de uma despedida. A covid-19 levou a senhora embora, mas não apagou a pessoa incrível e de luz que a senhora foi.

Guardaremos para sempre todos os momentos inesquecíveis que vivemos, como a senhora gostaria que eu fizesse se estivesse me consolando.

Sentimos muitas saudades, seus filhos, familiares e amigos, te amamos para todo sempre até breve. 🙏🏼❤️

Minha mãe Luzia de Melo Ferreira

por Valeria Ferreira Saquete

Minha mãe, Luzia de Melo Ferreira, foi levada pela covid em abril de 2020. Isso é inacreditável!

Minha mãe tinha 72 anos, saúde de ferro. Fazia 11 meses que havia se aposentado. A vida toda trabalhando como professora, não queria largar “suas crianças”.

Mãe de 3 filhas, vovó “gracinha” de 4 netos, esposa atenciosa durante 44 anos. Uma pessoa extremante querida e atenciosa com todos. Ativa… sempre fazia suas atividades, viajava, passeava com as filhas e netos.

Eu sempre queria ela perto de mim. Minha mãe, minha amiga, minha parceira. Ela não merecia ficar sozinha nos últimos dias de vida, ainda mais ela que nunca deixou ninguém só. Deixou muitos órfãos.

O vazio é imenso, dói, e o luto solitário é cruel. Acompanho meu pai passando pelo luto dele. Ele também foi contaminado e após muita luta sobreviveu.

Sou grata por ter tido ela como mãe. Por ter vivido essa relação tão intensamente. Aproveitei todos os minutos.

Acredito que Deus estava precisando dessas pessoas para ajudar a receber os milhares que chegam lá. Espero que ela esteja bem… apesar do vazio seguiremos aqui dando o nosso melhor e honrando seu nome também cuidando dos nossos filhos, chamegos dela.

Saudades eterna!
Minha mãe!

Minha mãe Odete Maria Silva

por Ana Cardoso

Mãe, minha Rocha, em 9 dias a covid te levou.

Estava comigo, não pegava nem gripe. Foi ficar 2 meses com meu irmão e quando voltou já veio mal.

Hoje estou dilacerada, com muita dor no coração. Sempre estivemos juntas. Saudade sangra.

Te amo e te honrei em vida. Te amarei de janeiro a janeiro! Meu amor é sempre teu!

Peço e rezo a Deus que a senhora esteja em um bom lugar na ETERNIDADE.

Te amo, minha mãe! 💔❤️❤️❤️❤️❤️🙏🙏🙏🙏🙏

Minha mãe Marisa Merchan

por Valéria Merchan

Em abril de 2020 um pedaço de mim foi embora.
Meu mundo desabou de uma forma que não consigo me conformar até hoje.

Minha mãe, meu espelho de mulher, guerreira, batalhadora, forte, que me ensinou a ser quem eu sou hoje.

Ela se foi e até hoje tenho um sentimento que não sei explicar o que é, raiva, dor, culpa. Mas culpa do que se sempre fiz tudo por ela e ela por mim? Sempre estivemos juntas nos melhores e piores momentos da minha vida.

Hoje tenho um buraco no peito impossível de fechar, um buraco no chão onde não consigo levantar…

Ah mãe, como EU TE AMO!
VOU TE AMAR ATÉ DEPOIS DO FIM…

Meu pai Roosevelt

por Michelle

Meu pai, meu herói, minha fortaleza… Ainda não acredito que o senhor se foi. Tanto amor, estou sem forças, meu grande amor.

Quanto orgulho em ser sua filha. O jeito que você se foi eu não consigo me conformar, pois meu pai que sempre esteve ao meu lado eu não pude segurar sua mão, fazer um carinho e dar um conforto para o seu coração.

Um pai maravilhoso, avô sem igual, marido preocupado.
Te amo para sempre.

Essa dor que eu sinto parece que só aumenta.

Descanse em paz.
Saudades sempre.
Obrigada por tudo.

Meu marido Marcos Di Giácomo Mariano

por Mara

Marcos, meu amor eterno. Não deixarei de te amar.

A cada dia a saudade aperta no meu peito. Você me ensinou o caminho da salvação, me ajudou em cada etapa de minha vida. Sou grata a Deus pelo privilégio que ele me deu de ser sua esposa por 28 anos.

Você se foi, mas a sua presença é muito forte dentro de mim. Te amo e amarei para sempre. Meu eterno amor. Tenho aprendido desde de sua partida no dia 28 de janeiro, faltando 3 dias para as nossas bodas, que não existe dor sem propósito.

Que saudade, meu amor! Que falta, que vazio enorme.

Minha mãe Maria Aparecida Alves de Queiroz

por Vanessa

Boa noite.
No mês de maio de 2021 faz 1 ano que partiu a pessoa mais importante da minha vida. O pilar da minha casa, minha amiga, a pessoa que eu sabia que daria a vida por mim, minha mãe…

Maria Aparecida, mulher lutadora, responsável, que me deu tudo do melhor com muito sacrifício e me ensinou que uma mulher tem que sempre ser lutadora e batalhar para lograr seus objetivos. Uma mãe leoa que defendia toda sua família. Eu poderia escrever aqui tudo o que ela foi e o que ela é.

Minha mãe, uma mulher que se guardou, e mandou mensagem para todos se cuidarem. Minha mãe passou mal, ela entrou andando e depois não a vi mais 😢.

9 dias intubada, lutando. 9 dias que eu e minha irmã não comíamos e não dormíamos. Logo em seguida meu pai caiu também e foi internado.

Somos uma família pequena, e era eu e minha irmã… Minha mãe entrou no hospital e me entregaram sua caixa com suas cinzas… E tive que engolir tudo, levantar e seguir trabalhando…

Estávamos 24 horas juntos, falávamos todos os dias.

Sinto um vazio que dói se me concentro e é como se me furasse com facas no meu quarto.

Meu pai sobreviveu mas ela não. Minha mãe era tudo pra mim.

Não tenho palavras para expressar o tanta dor que carrego todos os dias, levantar com esse vazio.

Desculpa, não consigo falar mais 😓😔😢

Meu pai Mauricio Pak Tsin Lin

por Marcela Lin – @vivendomeuluto

Meu pai se chamava Mauricio.

Seu apelido era China ou Chi para os mais chegados por causa dos seus traços orientais. Ele tinha 65 anos e um abraço acolhedor que demonstrava sua felicidade por encontrar as pessoas. Quase sempre estava sorrindo ou com uma cara feliz mesmo sem exibir os dentes, que já renderam muitas piadas da minha mãe e que eu herdei (os dentes e as piadas).

Ele tinha seus momentos de braveza. Quando éramos crianças, a frase que fazia eu e meu irmão pararmos qualquer bagunça era “eu vou virar o Hulk” (e não era de brincadeira).⁣⁣

Sempre foi muito trabalhador. Ele era bom em vendas, área em que atuou em diferentes empresas. Aprendi a dar nó em gravata sozinha vendo ele se arrumar todo dia. Mesmo depois de se aposentar no ano passado, seguia trabalhando e trabalhou até o dia em que foi internado.⁣⁣

Ele já tinha nos dados sustos antes por causa do seu coração. Mesmo assim, nenhum deles foi o suficiente para que cuidasse melhor da sua alimentação. Ele tinha prazer em comer – e, se o bolso permitisse, comer fora. Mal acabava o almoço e já estava pensando no jantar. Na Páscoa, já falava da ceia do Natal. Era uma das melhores pessoas para indicar restaurantes – nada chique, mas com comidas gostosas. Amava camarão, guioza, bacalhau e pizza do Paparella. Não bebia nada alcoólico.⁣⁣

Outro grande prazer era lavar seu carro. Antigamente, ele mesmo lavava. Nos últimos anos, era seu programa matinal de sábado ir ao lava-rápido e, muitas vezes, acompanhar a lavagem. Seu carro sempre foi super limpo e bem conservado.⁣⁣

⁣⁣Ele gostava de viajar, algo que só conseguiu fazer mais nos últimos anos. Era o melhor guia para ir a Porto Alegre, Curitiba e São Paulo (onde cresceu). Também era parceiro para fazer compras em Brusque e ia até na 25 de março.⁣⁣

Quando parte do palco do Planeta Atlântida caiu e foi aquele desespero para sair do local debaixo de chuva, consegui avisar meu pai. Minutos depois, ele chegou, coincidentemente com uma camiseta de Super Pai (com o símbolo do Super Homem), e veio me buscar junto com as minhas amigas. Este momento emblemático representa muito o que ele foi pra mim a vida inteira. ⁣⁣🖤

Minha mãe Cilene da Rocha Santana

por Silvana

Cilene, uma brasileira forte, assim era minha mãe.
Nordestina, nascida no interior da Bahia, aos 3 meses ficou órfã e aos 6 anos já era ajudante em casa de família, onde de cima de um banquinho lavava louça.

Como muitas brasileiras, foi doméstica em várias casas, onde enfrentou o que você puder imaginar. Casou aos 17 anos, em busca da própria família e aos 24 partiu pra São Paulo com três filhos pequenos para se distanciar do marido alcoólatra. Na capital paulista, como tantos migrantes, trabalhava 16 horas em um restaurante para levar o dinheiro e as sobras de comida para os filhos, que ela não largava de jeito algum.

A moça de olhos castanhos delicados conheceu meu pai e algum tempo depois se tornaram um par, que viveu junto 40 anos. Uma boa vida, estável, família unida, filhos graduados e encaminhados e netos já grandes. Quando perdeu “seu velho” foi pro litoral em busca de mais qualidade de vida. Se dedicava à família, aos cachorros, às plantas, à pintura e a ajudar os outros… não sei exatamente em que ordem.

Com a pandemia passou um ano sem sair de casa. Amava a Bahia e diariamente fazia planos de ficar meses aqui e se dividir entre sua terra de nascença e a terra do coração. A covid não deixou. Não sabemos como esse inimigo invisível entrou naquela casa verde, perto do mar e tão protegida, e se alojou nos pulmões da baiana de cabelos anelados.

Foram 8 dias de risos e certeza de vitória contra a doença, afinal, ela era nordestina e o nordestino é, antes de tudo, um forte. De surpresa a covid explodiu em uma de suas faces mais cruéis: a silenciosa. Apesar de ter um plano de saude top de linha, foi o SAMU que a socorreu e os médicos do Hospital Regional (viva o SUS), que tudo fizeram por ela durante 8 dias de intubação. Não, não havia vagas na rede particular de São Paulo.

Às 4h30 da manhã do dia 24 ela decidiu ir e, por mais que os médicos tivessem tentado, às 04h45 tudo já era um mistério entre minha mãe e Deus. Eu chorei e cantei baixinho uma canção antiga que cantávamos “se eu soubesse que chorando empato a sua viagem, meus olhos eram dois rios, que não te davam passagem”.

Continuo cantando.

Minha mãe Maria, meu pai Wilson, minha sogra Vilma

por Janaina

Minha memória aos entes queridos: Maria Dionísio Pires, Wilson Pires, Vilma Aparecida Pereira da Silva.

Meu pai Miguel da Costa

por Érika, a filha que tanto te ama

Meu amigo, meu herói, meu orgulho…

Imaginei que um dia sentiria uma dor grande, mas não imaginava da dor ser tão intensa, uma saudade que dói. Dizem que um dia passa essa dor e fica somente a saudade, será verdade?

Desde que começou a pandemia me isolei com minha família em casa. As saídas eram somente para o básico, deixamos de ver amigos, confraternizar, sair, viajar nem pensar. Por amor, mantinha uma distância e tinha muito medo de meus pais pegarem, me sentia a neurótica. Deixamos de abraçar, de beijar e nada adiantou: a covid levou meu pai.

Ouvi as frases “até ela pegou e não saia de casa” e “não adiantou o isolamento ela pegou também”. E digo que adiantou sim. No último dia de vida do meu pai eu estava com ele. Revivo todos os dias o último dia dele, o choro me acompanha, não consigo concentrar, durmo mal e à noite é o pior horário.

Ai Pai, ai Miguel como sinto a sua falta. Mas não era sua hora. Você saiu de casa andando, como assim não voltou?! Você sempre voltava. A sensação é que passaram uma borrachinha e você rapidamente sumiu. Como queria voltar no tempo, como queria ter te abraçado mais, te beijado mais.

Tento ter foco, ser forte mas é difícil. A saudade dói! Queria conversar com você em sonho.

Sei que sou abençoada por ter tido você na minha vida, me ensinou muita coisa, deixou valores, ética, era um homem bom. Viveu bem 83 anos de muita luta, garra, vitórias, sem mãe, criado pela avó, deu a volta por cima e conseguiu seu sonhos.

És um homem bom. Nos braços de Jesus sei que está melhor que a gente, mas somos egoístas e queríamos você aqui com a gente. Estamos bem, levando… pois a vida é um trator e não podemos parar… temos que seguir né? E assim estamos levando, com dor, com saudades desse pai maravilhoso que muito nos deu. Obrigado, obrigado, obrigado…

Te amo Pai, sei que está intercedendo por nós e está bem. Você foi perfeito, ótimo Pai, Marido, Vô, Sogro e Amigo.

Meu sogro Antônio Cândido

por Luciana

Eu não tive avós presentes na minha vida e isso sempre me fez muita falta. Sempre falei que quando tivesse meu filho ele teria esse amor que tanto me faz falta. Aquele cuidado, carinho, amor de avós…

Em março, quando começou a pandemia, para não ficar presa num apartamento com um bebê de 2 anos, eu e meu marido resolvemos nos isolar no sítio com meus sogros e mesmo assim a covid chegou lá. Foram 9 contaminados de 10 que estavam isolados no sítio.

Meu sogro foi o mais afetado, 59 anos, cheio de saúde (havia parado de fumar há 25 anos). Nos primeiros sintomas já foram receitadas as medicações para covid, porém ele não teve melhoras. No dia 27/07 ele fez uma tomografia onde mostrou 20% do pulmão comprometido.

No dia 30/07 ele foi internado. Dia 03/08, dia do aniversário do filho dele, ele foi transferido pra UTI. Dia 06/08 intubaram ele. Desde então ele não teve melhoras. No dia 08/08, aniversário da minha sogra, achamos que o problema era o hospital, por isso ele não melhorava!

Por conta própria tiramos ele do hospital que estava, contratamos uma UTI móvel e levamos ele para um dos melhores hospitais de São Paulo, onde logo já iniciaram um protocolo ainda pouco usado pelo valor que custa a medicação. Mesmo assim nada de melhoras.

Dia 10/08, meu aniversário. Meu presente seria sua melhora, mas isso não aconteceu… Dia 28/08 fizeram uma traqueostomia nele, pois diziam que aí ele iria se recuperar, porém não houve melhora, nem piora. Dia 29/08, aniversário dele, não teve festa como todo ano, não teve abraço, beijos, risadas, amigos… Dia 08/09, dia do aniversário do outro filho dele, ele faleceu…

Em todo esse tempo internado ele não teve melhora, nem piora! O rim dele continuou funcionando, ele não teve infecção, secreção, nada… Simplesmente ele se manteve numa linha reta até, por fim, ter uma única parada cardiorrespiratória e não voltou nunca mais…

Meu filho agora tem apenas um avô, meu pai. Moramos em outra cidade, a vida sempre muito corrida. Não sabemos os planos de Deus. Meu sogro era ativo, alegre, montava a cavalo, cuidava do sítio, era responsável por tudo.

Tá doendo. Muito! Meu sonho em parte não vai se concretizar. Foram 4 meses morando com ele no sítio onde meu filho teve amor, cuidado, carinho… como eu queria que todos aqueles momentos fossem eternos. Mesmo mostrando fotos e vídeos, parece que meu filho já esqueceu dele. Ele tem 2 anos e apenas fala vovô está no céu. Corta o coração, as lágrimas rasgam a alma…

Sogro, 2 semanas que você se foi, 2 semanas que não fico ansiosa esperando o boletim do hospital, 2 semanas que a esperança deu lugar ao luto, 2 semanas que eu fico vendo vídeos, áudios, fotos suas enquanto me pergunto o porquê.

2 semanas de uma vida sem você…
Te amo para sempre!

Saudades de te abraçar e dar um cheirinho na sua cabeça, de fazer o macarrão com salsicha, do suco de abacaxi com hortelã, de dizer que você tinha que me valorizar por ser sua única nora (ironia) rs. Meu filho sempre vai saber o grande homem que você foi!

Meu avô-pai Luiz Carlos Sampaio Botelho

por Isa Botelho

Meu avô era um homem bom, muito honesto, poderia ter sido milionário se não fosse pela honestidade.

Perdi minha mãe com 9 anos e meu avô me acolheu enquanto filha, a filha que ele perdeu. Cuidou de mim como se fosse a coisa mais importante da vida dele. Dormia de mão dada comigo porque tinha medo de dormir e tinha pesadelos. Meu avô transformou os meus sonhos no dele.

Meu avô estava muito mal em casa, mas não queria ir de jeito nenhum pro hospital, acredito que tinha medo de não voltar, mas quando foi estava pedindo pra morrer.

Foi internado com suspeita de covid e infelizmente a suspeita se tornou verdade. Foram 15 dias internado sozinho, onde recebíamos os boletins médicos no telefone em casa e os médicos viam uma melhora a cada dia. Porém, no décimo quinto dia ele teve uma piora muito grave, teve que ir as pressas para UTI, teve que ser intubado. Ele não resistiu à intubação e teve uma parada cardíaca e acabou falecendo. Sozinho, sem ninguém do lado pra ajudar na passagem. Deve ter sentido medo.

Me lembro dos últimos momentos que pude estar com ele. Ele estava tão fraquinho e com tanto medo que eu queria muito ter dado um último abraço nele, não dei porque não queria que fosse o último. Não estou conseguindo lidar com a dor no peito que essa perda de causa.

Meu pai Adair

por Cartas pro meu Pai

Às vezes nem parece que tu se foi.

Às vezes dá uma saudade… um aperto no peito! E eu nem sei porque é aqui que eu venho… acho que é só porque tenho onde escrever… parece que vai chegar em ti… porque a bem da verdade acho que ninguém nem atualiza esse site!

Parece que vivo num mundo paralelo… muito difícil não poder te ver pela última vez! Muito triste imaginar que muitas pessoas ainda estão passando por isso… acho que assim é mais difícil assimilar!

Tu só saiu pra hemodiálise e não voltou! E aqueles últimos 46 segundos que nos falamos não saem da minha cabeça!

Te amo tanto!
Que saudade.

Meu pai Adair

por Cartas pro meu Pai

Pedi tanto que aquela ligação não fosse a última!

Um dia antes do dia dos pais e naqueles últimos 46 segundos de nossas vidas tu me chamou de minha filha pela última vez! Tão fraquinho e eu desmoronei!

Dói lembrar do dia que a médica nos disse que teríamos uma video chamada pois tu estavas ansioso querendo falar conosco. Uma chamada que não aconteceu!

Fico pensando no que tu pensou enquanto estavas lá. Fico triste de saber que tu estavas triste também. Preocupado que nos deixaria.

Tu sempre foi um cara esclarecido e eu penso que seria tão melhor se tu não fosse naquela época. Eu preferia que tu não soubesse o que ia acontecer! Assim tu não sofreria com isso! Mas tu sabias! Eu sei que sim! Eu sinto muito!

Um dia antes falamos tanto ao telefone! E tu disse que me amava pela última vez!

Tão horrível e tão desumano! Nem pude te contar que estive muito mal com essa porcaria de vírus, mas sobrevivi pra cuidar da mãe e do mano! Tão mal que estive mas só lembrava de ti, naquele hospital, com uma esperança tão pequena e tão persistente de que tudo daria certo.

Muito triste não te ter mais! Nos nossos áudios gravados te encontro às vezes, mas as conversas não mudam! Tenho tanto pra te contar!

Que saudade, meu pai querido!

Minha mãe Nilza

por Rosa

Bom, vamos ao meu relato, à minha experiência… É muita dor que sinto ainda, mas vou compartilhar com vocês um pouco da minha dor.

No dia 21/07, minha mãe de 68 anos (fumante há 50 anos, com DPOC) sofreu uma queda da própria altura e bateu a cabeça. Com uma fragilidade capilar intensa, seus braços ficaram em carne viva. Vamos socorrê-la e a levamos ao Hospital São Matheus, em Bangu.

Chegando lá foi atendida e o Dr. Thiago, que estava de plantão, resolveu interná-la para investigar um pequeno cisto no cérebro. Porém foi para o CTI devido a fraca respiração, e foi avaliada pelo Neurologista, o qual me falou que o cisco não comprometia em nada e nem era caso de cirurgia.

Ela ficou 2 dias no CTI e teve alta pro quarto. Eu, filha dela, fiquei como acompanhante dela. Ela estava se recuperando bem, aguardamos a equipe do home care instalar na casa dela os aparelhos para o oxigênio auxiliar na respiração.

No dia 28/07 eu comecei com uma amigdalite, lá mesmo no hospital o médico me avaliou e disse que era apenas uma amigdalite, e me passou uma benzetacil. Tomei e em dias melhorei, porém no dia 30/07 meus dois filhos também começaram com essa amigdalite. Falei com o médico que cuidava da minha mãe, “como era normal aqui em casa sempre que eu tinha amigdalite, meus filhos também tinham…”. O médico disse pra eu não me preocupar pois a covid não causava amigdalite com pus.

Enfim, no dia 01/08, meu esposo começou com febre alta e dor no corpo. O médico disse que como ele não tinha amígdala poderia está se manifestando de outra forma. Bom, continuei cuidando da minha mãe no hospital. No dia 06/08 ela teve alta, no dia 07/08 foi aniversário dela.

Ela foi pra casa se recuperando bem, com suporte de oxigênio, fazendo fisioterapia em casa. Porém no dia 13/08 ela começou com muita dificuldade em respirar. Liguei pro plano e enviaram o médico e ele avaliou ela, e levamos pro hospital. Lá ela ficou com acesso com antibiótico forte.

Meu esposo ainda estava se sentindo mal, porém já havia passado pelos médicos 2 vezes e ninguém cogitou covid. Porém na emergência eu pedia ao médico para passar uma tomografia pra ele, enquanto aguardava o resultado da tomografia da minha mãe. Bom, o resultado da tomografia dele não foi diferente da minha mãe, vidro fosco com pneumonia viral.

Eu perdi meu chão, minha mãe e meu marido estavam com covid. Eu na hora surtei dizendo que, por ter manifestado os sintomas primeiro, achei que eu havia matado minha mãe 😭. O médico me deu um calmante, eu apaguei, meu sobrinho e minha sobrinha ficaram lá com a mamãe aguardo a transferência.

Ela foi levada pro hospital São Lucas em Niterói na madrugada. Chegando lá teve duas paradas cardíacas e não resistiu. Foi morar com Papai do Céu.

E eu e meu esposo e meus filhos fizemos o teste PCR, todos positivos. Essa doença acabou com minha saúde mental, estamos praticamente assintomáticos, só meu esposo que ficou mais grave. Eu e meus filhos tivemos uma pneumonia fraca, e muito medo.

Estamos todos bem. Mas pagamos um preço altíssimo: perdi minha mãe!

Não me conformo, sei que fomos contaminados no hospital, mas tento trabalhar isso na minha mente o tempo todo. A dor no meu peito é muito forte, a culpa de eu poder ter passado isso pra ela não me deixa dormir.

Sei que o tempo vai amenizar, estou compartilhando com vocês para que de alguma forma possa ajudar alguém com minha triste experiência com essa terrível doença.

Quero dizer que cuidei da minha mãe com muito amor envolvido. Nunca imaginei que isso iria acontecer. O que eu e meus irmãos sempre pedíamos pra ela parar de fumar, que se ela fosse parar no hospital isso poderia acontecer, mas ela nunca deixou de fumar por isso.

E tudo que tanto tinha medo de acontecer, acabou acontecendo. A doença nela foi muito rápida, e levou a vida dela em apenas 2 dias!

Bom aqui está meu relato com muita dor, muita mesmo, eu compartilho com vocês.

Meu pai Antonio Carlos Rapette

por Fiama Rapette

Meu pai Antonio Carlos Rapette, do interior de São Paulo, veio passar a quarentena na casa do meu irmão em Recife. Depois de 2 meses em Pernambuco começou com um pouco de tosse. Conversando por WhatsApp com ele, eu como médica disse pra tomar um xarope e antialérgico; como era só tosse, sair de casa era um risco maior.

Depois de uma semana nosso cachorro de 15 anos faleceu. Ele ficou muito mal e não queria comer direito, então fui visitá-lo. Quando examinei percebi que tinha que levá-lo direto ao hospital. Ficou internado com o diagnóstico de insuficiência cardíaca, depois de uma semana teve alta e depois de 4 dias começou com febre. Levamos ele para o hospital de novo e já estava com coronavírus. Depois teve muitas complicações, ficou 2 semanas intubado e não resistiu.

Ele com 59 anos só tinha hipertensão arterial, mas era controlada, tinha feito exames de sangue e ecocardiograma em menos de 1 ano e estava tudo normal. Não deu nem tempo de descobrir qual foi a causa da insuficiência cardíaca.

O mais difícil foi não poder estar ao lado dele, acompanhando depois que deram o diagnóstico de covid-19. Também ainda é difícil entender porquê era hora dele partir, tinha tantos planos com ele.

Ele não conheceu nenhum neto, era uma pessoa tão bondosa, humilde, sem ambição, puro de coração, sereno, amoroso, generoso, se orgulhava muito dos filhos e cuidava da minha vó com todo amor do mundo. Amava músicas clássicas, museu, ferromodelismo, fazer maquetes, tocar violão e cavaquinho. Amava doces e animais, qualquer cachorro adorava ele. Quando eu me arrumava para sair era lindo como ele me elogiava, sempre consertava meus brinquedos quando criança e meus brincos e pulseira quando moça. Não reclamava de nada, sempre estava tudo bem.

Eu nunca senti uma dor tão grande, a saudade não cabe em mim.
Te amo muito meu paizinho lindo!

Meu pai Mauri

por Mariana

“Filha, estou contaminado!”

Há pouco mais de um mês escutei as tão temidas palavras vindas de um pai que sempre foi pra mim sinônimo de força, mas que naquele momento se tornava frágil e tomado por medo. O pranto tomou conta da nossa vídeo ligação. Meu chão sumiu, se afundou, desmoronou.

Depois daquela ligação ainda consegui o ver mais uma vez, já internado no hospital, algumas horas depois. Consegui dizer a ele que o amava muito e que estava ao seu lado para atravessar aquele caminho que sabíamos que não seria fácil.

Ele pouco falava, já com bastante falta de ar. Gesticulou que também me amava e aquilo significou muito pra mim. Muito. Também conseguiu, com bastante dificuldade, me dizer que “ia sair dessa”. Guardei aquelas palavras bem perto do meu coração em pedaços. Ele estava lutando contra aquele maldito vírus. Eu acreditava que ele ia vencer. Ele tinha me prometido que ia…

Foram 2 semanas de muita angústia, enquanto ele, em estado muito grave, lutava contra a doença. A distância física nos separava, mas o amor nos unia… A doença foi mais forte que meu pai e ele não conseguiu cumprir a promessa que me fez.

Um pedaço de mim se foi no dia que meu pai nos deixou. Meu pai… Meu pai se foi… Ainda acho muito difícil acreditar. Sua partida foi tão cruel e dura pra mim. Ele tinha acabado de completar 69 anos, e em duas semanas se foi, longe de mim, sem velório, enterro às pressas organizado por amigos amados, caixão fechado sem ninguém poder se despedir… Quanta dor, quanta tristeza. Não pude nem enterrar o meu próprio pai…

Nossas ligações de vídeo diárias me fazem uma falta tão grande. Não poder dividir com ele as pequenas conquistas dos meus filhos, me parte o coração. Pensar que daqui pra frente ele não estará mais ao meu lado pelo resto da minha vida me deixa sem chão. Que falta você já me faz, pai. Que vazio…

Mas meu pai não está não só nas minhas memórias, ele também está no meu corpo, é parte de mim. E o vejo quando me olho no espelho. O vejo. Sua presença foi arrancada de mim de forma trágica e cruel, mas isso nunca ninguém vai tirar de mim.

Meu pai, te amo, todos os dias e para sempre.

Meu pai Vicente

por Priscila Alcântara

Perdi meu pai pela COVID de uma forma extremamente rápida. Mas agradecemos a Deus pelo cuidado dele em todo o processo.

Meu pai estava sem sintomas, como é divulgado, para que suspeitássemos do vírus. Quando resolvemos levá-lo ao hospital, ele estava a poucos dias prostrado e não conseguia fazer as atividades que normalmente fazia.

No dia 9/07, o levei ao posto de saúde onde foi transferido para a UPA da região. No dia 11/07, ele foi transferido para o Hospital municipal da cidade em que morava.

A princípio não tinham suspeitas de covid, porque realmente ele não estava com sintomas. Dois dias depois da internação ele foi entubado. O quadro dele estava sempre melhorando, tínhamos grandes esperança dele se recuperar e voltar para casa.

Na madrugada do dia 26/07, meu pai sofreu duas paradas cardíacas. Na primeira, ele resistiu e voltou. Na segunda, ele não conseguiu! Durante todo esse processo, eu sempre pedi muito a ele para lutar até o fim, não desistir… Por mais que eu visse o quanto estava sendo difícil para ele, mesmo assim, ele estava se esforçando.

O que eu menos queria era que meu pai sofresse. Pedia a Deus, noite e dia, que ele não sofresse.

Meu pai, foi um homem que aproveitou muito a vida, da forma que ele gostava. Antes dele internar, conseguiu rever amigos de décadas, estar com a família… comemorar seu aniversário de 70 anos. E no aniversário de 69 anos, ver toda a sua família reunida.
A perda é algo muito difícil, que não estamos preparados… Mas as boas lembranças, sentimentos de que vivemos o melhor com ele, tem acalmado meu coração. Não é fácil! Tudo mais rápido, assustador e triste.

Mas tenho a plena certeza que realmente fizemos o que podíamos. Ao ouvir da médica que ele lutou até o fim, foi a resposta e o alívio. Sei que ele fez isso por nós! E também sei que agora ele está bem.

O que nos resta são as boas lembranças! Muitos momentos especiais! Registros e muito amor. Porque o meu pai vive em nossas memórias, coração e saudade.

Meu marido Evandro

por Suely

Conheci meu marido com 14 anos. Meu primeiro e único amor.
Nos casamos em 1983 e tivemos 4 lindas filhas. Uma com 34 anos, outra com 32, 22 e a mais nova com 13 anos. Éramos uma família linda e com a chegada da nossa neta, tudo parecia perfeito.

Meu marido era a pessoa mais carinhosa do mundo e todo preocupado com a segurança de nossa família. Todos os dias ele falava que me amava, mesmo tendo 37 anos de casados.

Com a chegada da pandemia ele se afastou do trabalho pois tinha diabetes e era hipertenso. Não deixávamos ele sair de casa por nada. Até que um dia ele teve que comparecer ao trabalho, pois ele precisaria resolver um problema. Logo em seguida começaram os primeiros sintomas, como tosse e falta de ar. Mas nunca imaginei que pudesse ser covid.

Após 3 dias com sintomas ele foi para o hospital onde o médico disse que poderia ser covid, mas que poderia ir para casa e fazer tratamento com antibióticos. Mas só piorou e 4 dias depois, foi internado. No dia seguinte ele soube que teria que ser entubado. Nesse dia eu e minhas filhas estávamos reunidas falando com ele por chamada de vídeo. Seu rosto assustado não me sai da memória. Ele queria se despedir.

Eu e minhas filhas ficamos desesperadas mas sem perder a fé, tínhamos esperanças de que ele ficaria bem, pois só tinha 57 anos. Foram 20 dias na UTI. 20 dias em que só tínhamos notícias ruins. Rezamos dia e noite pela recuperação dele.

Até que no domingo, 19 de julho, veio a notícia mais triste da minha vida. Ele havia partido. Teve uma parada cardíaca e não suportou. Pensei: Como Deus pode fazer isso comigo? Levou meu companheiro, minha vida e justo no mês do aniversário dele, que ele adorava comemorar.

Hoje tem 13 dias que ele partiu. Minha vida não tem mais sentido. Não faço outra coisa a não ser chorar. Só penso em seguir porque tenho minhas filhas que precisam de mim. Mas como vou viver sem o amor da minha vida?

Meu pai Cosme

por Camila Amaral

Meu querido e amado pai, eu lhe amo tanto.
Meu pai me chamava de Mi, era meu amor maior. Não morávamos juntos. Mas a cerca de 20 minutos de distância.

Dia 27/06/2020 pai tinha me mandado uma mensagem, no WhatsApp, falando que tinha dado febre, eu disse: “Pai, você precisa consultar, beber mais líquido”. Pai disse que não ia ao médico.

Meu pai tinha 61 anos, nenhuma comorbidade, era aposentado e morava com minha mãe que trabalha na maternidade do hospital (e minha irmã Janaynna mora em cima da casa de meus pais, com seu filho e esposo). Pai era muito higiênico e usava máscara.

Dia 28/06 fui à casa de meu pai que estava sozinho (minha mãe estava trabalhando), fiz suco de limão para ele, ele brigou comigo dizendo que queria era suco de laranja. Juro que não pensei que seria a covid-19, pois meu pai estava andando, falando. Apenas mandei mensagem, no WhatsApp, para minha mãe, falando que pai queria suco de laranja. De noite mandei mensagem no WhatsApp, mãe disse que pai estava melhor e tinha tomado suco de laranja, que mãe tinha trazido.

Dia 29/06 fui à casa de pai e levei pizza, pai brigou comigo, dizendo que não era para eu gastar dinheiro com pizza. Eu arrumei todo o quarto de meu pai, tirei toda a poeira, troquei os lençóis da cama, e do sofá na sala, onde pai ficava. Pois na minha inocência, achava que era gripe, pois a cidade que moro é muito quente, e na última semana de junho fez muito frio, muito frio mesmo. E pai geralmente gripava no frio. Assim, fui embora para minha casa.

Na madrugada de segunda-feira, dia 30/06, dei muita febre e, como moro sozinha, quando amanheceu eu tirei uma foto minha, mandei para meu pai e disse: “Pai agora quem está mal sou eu. Vou ao posto de saúde porque estou com muita febre. O senhor que ir?”. Pai disse que não. Fui ao posto, a médica suspeitou de dengue, e pediu para eu ficar isolada 14 dias. Meu pai apareceu no posto, eu disse a ele que eu estava bem, mas que precisaria ficar 14 dias sozinha (isolada), meu pai disse: “Tudo bem”.

Em nenhum momento eu suspeitava do vírus, não sei dizer até onde era inocência, ou se não conseguia processar rápido as informações. E neste dia, não disse a meu pai: “Pai, aproveita que o senhor está no posto e consulta”. Eu juro que não lembrei, não ligava uma coisa a outra, estava com muita febre. Daí pai foi para a casa dele, eu fui para a minha. Dormir a tarde toda de segunda. Depois, mandei mensagem a meu pai perguntando se ele estava melhor. Pai disse que um pouco, e ele disse que ia ao supermercado e perguntou se eu queria algo. Eu disse: “Não pai, muito muito obrigada. Vou ficar quietinha aqui”.

Daí, dia 01/07, Janaynna que mora em cima da casa de pai, disse que ia levá-lo ao hospital, pai disse: “Amanhã você me leva”. E minha mãe tinha recebido atestado médico pedindo para ficar isolada 14 dias (pois estava com sintomas da covid).

Mandei mensagem às 20h do dia 01/07 no celular de meu pai, perguntando como ele estava. Pai não respondeu. Dia 02/07 mandei mensagem cedo para pai, pai de novo não respondeu. Mandei mensagem para minha mãe, mãe disse que Janaynna havia levado pai para consultar. O primeiro teste para a covid deu negativo, mas como pai estava tossindo e cansando muito, e a tomografia foi sugestiva para a covid, segundo a minha irmã Janaynna, a médica sugeriu que pai ficasse no hospital, na ala pré-covid, para fazer mais exames e também porque a oxigenação não estava estável.

Eu lembro que perguntei a minha irmã: “Mas isso é seguro?”. Perguntei porque os médicos não me deixaram entrar para ver meu pai, só fui deixar as roupas para a internação. Deixei as roupas com a minha irmã e falei com Janaynna: “Janaynna, fala com pai que o amo muito, viu? E avisa a ele que já estou melhor”. No outro dia, 04/07, como minha irmã tem filho pequeno, eu assumi a frente com meu pai, e fui buscar o boletim médico. Eu toda contente com água de coco, água mineral, uma coisas que meu pai gosta de comer, enfim… pois achava que meu pai teria alta, mas a médica disse que pai seria levado para o CTI. Neste dia, eu desesperei e liguei para minha irmã e minha mãe e disse que elas tinham de vir urgente ao hospital.

Eu perguntei várias vezes aos médicos se pai poderia ser transferido para outro hospital, o médico disse que não se responsabilizaria, pois a oxigenação de meu pai não estava estabilizando. E que o CTI daria um conforto maior para meu pai, pois ele estava cansando muito.

Vi meu pai passando de maca de bruços para o CTI, eu ainda gritei: “Pai!”. Foi a última vez que o vi. Mandei vários recadinhos de autoadesivos (Post-it) pelos enfermeiros e médicos, dizendo o quanto pai era meu amor maior, o quanto ia dar tudo certo, o quanto Camila estava lá, atrás daquela porta do CTI. Deixei o número de meu telefone também, pois pai não sabia meu número de cabeça.

O enfermeiro colou todos os recados para meu pai ler, e eu ainda pedi que se pai pudesse escrever um bilhetinho para mim, pai escreveu: “Camila em breve estaremos juntos”.

Dia 05/07, meu pai foi intubado pela tarde e às 21h meu pai faleceu. Foi o dia mais triste de minha vida, por tudo o que aconteceu. Eu achava que eu deveria ter raciocinado antes, sabe? Ter agido antes. Quando cheguei à casa de minha mãe, mãe estava só deitada e muito mal. Tirei minha mãe de casa na hora, levei ela na Unimed, ela consultou, o médico receitou Azitromicina, comprei na hora, e a levei para morar comigo. Bem como comprei o oxímetro para monitorar a oxigenação do sangue. Monitorava minha mãe 24 horas, e depois de uma semana, minha mãe começou a melhorar. Já não tossia muito, já se alimentava melhor e andava um pouco.

Enfim, a perda de meu pai dói a minha alma de uma forma inexplicável. E graças a Deus minha mãe se recuperou do vírus. E hoje está bem, e mora comigo. Mas ela já voltou a trabalhar, pois disse que o hospital é a vida dela. Enfim, eu tentei transferência dela para outra área de trabalho fora do hospital, mas minha mãe não aceitou.

Meu pai José Moreno

por Dani

Ah meu querido pai… Era assim que eu o chamava. Ele sempre com aquele jeito de que tudo estava bem mesmo quando eu sabia que não estava. Sempre foi um excelente pai, sempre presente mesmo depois de ter se separado da minha mãe quando eu ainda era criança. Pegava na escola, passeávamos, me dava amor e carinho. Cresci, virei uma mulher e ele sempre ali, meu querido pai. Adorava contar piadas e falar de lugares que ele nunca tinha ido. Mó figura, muito prestativo e bondoso, especialmente com as crianças e idosos.

Meu pai nunca teve um problema de saúde e por ser muito medroso sempre se cuidava. No último sábado de abril meu pai me ligou para saber como eu estava, conversamos amenidades. Notei sua voz fanhosa, estava gripado. Disse que não tinha olfato. Acendeu minha luz vermelha. Falei para ele ir ao médico. Ele como sempre disse que não era nada demais.

3 dias depois ele se internou. Febre, coriza, falta de ar. 4 dias depois ele foi intubado, 4 dias mais e ele me deixou… Esse vírus maldito levou meu querido pai em uma semana e fiquei aqui sem saber das coisas, sem poder ter ido visitá-lo, sem poder ter dado um beijo, um apoio, sem poder ter me despedido no seu enterro, sem poder ter pego na sua mão e dizer que ele não estava sozinho. Na véspera da intubação eu disse que o amava muito pelo WhatsApp. Ele me mandou uma foto dele no respirador… E disse que me amava também. É muita dor… Nunca mais serei a mesma.

Meu esposo Hamilton

por Mayara

Dia 12 de junho era para ser um dia de comemoração como em todos os anos, o Dia dos Namorados. Mas para mim deixou de ser um dia para se comemorar, e agora será uma data para me lembrar com dor no coração, dor na alma e no corpo.

Hamilton estava há 18 dias hospitalizado, 4 dias no pronto atendimento e 14 no CTI, diariamente haviam boletins médicos e os médicos sempre faziam questão de frizar: “Ele é jovem, saudável e tem tudo para se recuperar…” É, mas não foi bem assim, foi tudo tão repentino, em um momento ele estava bem, se recuperando e de repente uma ligação às 23h pedindo os documentos do Hamilton pois havia tido uma intercorrência.

Ali abriu-se uma cratera sob os meus pés, agarrei-me às suas roupas e chorei copiosamente, meu corpo todo tremia e meus lábios estavam roxos, o sangue do meu corpo “desapareceu”pois naquele momento eu sabia, eu sentia que meu Hamilton havia partido. Aos 33 anos, saudável, forte e lindo vítima do covid 19. Nunca havia passado pela minha cabeça perdê-lo dessa forma, nunca pensei na morte como sendo algo tão próximo da minha realidade, não naquele momento. Sempre achamos que não vai acontecer na nossa família.

A minha vida parou, perdi completamente o sentido de tudo, com um bebê de 6 meses para cuidar, pensei e agora!? O que eu vou fazer, como vou viver sem a minha metade, sem o amor dá minha vida, e meu filho?! Como vou criá-lo sozinha!? Eu estava sem direção e com uma dor enorme no corpo inteiro, pois a dor emocional atravessou a minha carne naquele momento e tomou o meu corpo. Como eu iria sobreviver diante dessa perda!?

E os dias continuaram a passar, as pessoas continuavam suas vidas e eu pensava: como pode o mundo seguir normalmente? Eu perdi o amor dá minha vida, meu amigo, meu companheiro, meu parceiro pra dividir tudo na vida. Simplesmente era impossível olhar adiante e não ver ele mais caminhando ao meu lado. Eu viúva aos 33 anos e com um bebê para cuidar, eu simplesmente não sabia o que fazer com a minha vida mais, como eu vou reaprender a viver assim, ninguém havia me dito que eu teria que passar por esse momento tão cedo, assim sem explicação.

Hoje tem 1 mês e 3 dias desde a morte do meu amado e a ferida continua exposta, a solidão me abraça, o silêncio é ensurdecedor, tudo muito frio, não pude me despedir do meu amado, é tudo muito sofrido nesse momento.

Estou tentando viver um dia de cada vez, procuro ler histórias de mulheres que passaram ou estão passando pela mesma situação que eu, pois é tão difícil atravessar tudo isso sozinha. Procurei grupos de viúvas e sigo alguns desses grupos que me acolheram com tanto carinho e dei início ao acompanhamento psicológico. Porque quando bate aquele desespero, a ausência, a falta, a saudade, os dias ficam longos e frios demais. E saber que não estamos sozinhas ameniza um pouco de toda essa dor, ficar viúva é uma condição que não se escolhe estar nela, mas infelizmente precisamos atravessá-la e conversando com essas pessoas o fardo fica um pouco menos pesado, ser compreendida por pessoas que sabem do que estou falando é uma forma de aliviar todo esse sentimento preso dentro do peito.

Meu pai Lourival

por Jaqueline da Silva Ramos

Meu pai era um pedaço de mim, era meu porto seguro, qualquer problema que eu tivesse, era só chamar que ele vinha correndo me socorrer, era um figuraça, adorava uma bagunça, sempre animado, irreverente, aproveitou até seu último minuto de vida fazendo as coisas que gostava. O amor da minha vida!

Meu pai Jesus

por Paloma Chediak

Perder meu pai por covid-19 foi o acontecimento mais triste da minha vida. Como se não bastasse a dor profunda da perda de um pai amado, a crueldade de ver a vida dele sendo ceifada de maneira tão rápida e violenta, torna tudo um pesadelo impossível de compreender.

As circunstâncias que rondam essa doença, desde a contração do vírus até a necessidade de internação, são particularmente angustiantes. A forma como o vírus entrou no corpo do meu pai é misteriosa, visto que estava bem informado e se cuidando metodicamente. Desta forma, sinto como se meu pai tivesse sido vítima de um acaso impiedoso, como uma bala perdida “invisível”. A urgência da internação foi um golpe duríssimo, vivi dias de intensa aflição, cada minuto parecia uma eternidade e tamanho foi meu sofrimento que era insuportável não recorrer a ansiolíticos.

A notícia do falecimento impôs uma ruptura radical na minha vida, separando o antes e o depois deste trauma. Cheguei a escrever no dia “nada será como antes”, pois é justamente como eu me sinto… A maneira como se deu a minha perda ainda não faz sentido para mim, mas a terapia já está me mostrando caminhos para ressignificar tudo isso e formas de tornar meu pai presente na minha vida, ainda que simbolicamente. O meu desejo é que, de alguma forma, minha dor se torne potência para levar adiante os ensinamentos preciosos que ele me deixou, sabendo o quanto isso o deixaria feliz.

Meu esposo Emanuel e minha mãe Rosa

por Jacqueline Soares Thomaz

Olá, me chamo Jacqueline, tenho 31 anos, e até antes de começar a pandemia eu tinha uma vida de sonhos, casada há quase 7 anos, 11 anos vivendo com meu companheiro, onde temos um filhinho de 6 anos que tem paralisia cerebral, que é super esperto, sua lesão é apenas motora!

Minha mãe sempre nos ajudou a tomar conta das crianças tanto que quando viajávamos os dois, sempre era a minha mãe que ficava com eles (tenho um mais velho que tem 15 anos, fruto de um breve relacionamento na adolescência), minha mãe banca os netos, especialmente o Breno, meu filho mais velho que ela me ajudou a criar.

Depois que Emanuel (meu caçula) nasceu, eu parei minha vida para tomar conta dele, deixei de trabalhar e comecei no primeiro momento ir atrás de diagnóstico e depois nas terapias. Para não deixar de viver a vida a dois contava sempre com a minha Rosa (minha mãe) para tomar conta das minhas crianças, e eu e meu esposo (Emanuel também) podíamos ter uma folguinha da rotina, o que era ótimo!

Emanuel (marido) era dentista e sempre realizou com excelência suas funções, era o único provedor da nossa casa, moramos numa boa casa, num condomínio tranquilo, casa essa que ele conquistou com esforço exclusivo de seu trabalho como dentista! Esse ano tínhamos planos, eu entrei para faculdade de psicologia, estava muitíssimo animada em poder dar esse passo e ir atrás do grande sonho da minha vida, e ele sempre me apoiando, feliz e entusiasmado por poder me ajudar a realizar este sonho…

Até que chegou a quarentena por conta da pandemia, e na segunda quinzena de março quando tudo parou, ficamos em casa, foi nosso aniversário, ele fez aniversário dia 20, eu dia 21 e nosso filho dia 26, todos em março, no final do mês ele já estava começando a ter medo de ficar sem ter meios de manter as contas, as funcionárias e nossa casa, com isso também começaram as ligações de pacientes solicitando atendimento de emergência pois o aparelho estava machucando a boca, outra que ainda tinha pontos para serem retirados, enfim, cada vez mais ele sentia necessidade de voltar ao consultório (lembrando que a quarentena, não impedia o atendimento de médicos e dentistas, estes podiam continuar seus atendimentos) e mesmo contra a minha vontade ele disse que voltaria, e voltou.

Eu não pude fazer nada para impedi-lo, tão logo ele retornou em abril, e apesar de ter diminuído o número de atendimentos ele seguiu atendendo, quando no dia 7 de abril (terça-feira) ele atendeu uma paciente que era esteticista e aproveitou para fazer retoque de um procedimento chamado microagulhamento em seu rosto e mãos, eu não sabia, pois se soubesse não teria mesmo deixado ele fazer, pois sei que pode dar uma baixa na imunidade da pessoa que faz e em plena pandemia a última coisa que podia acontecer era ele ter uma baixa na imunidade.

Liguei para ele neste dia, porque passou do horário dele chegar e foi nesse momento que ele me disse que havia feito, me preocupei, quando ele chegou me informou que estava sentindo um mal estar, imaginamos que poderia ter sido por conta do procedimento, neste dia jantou, fomos dormir e até aí tudo bem.

Na quarta-feira, dia 8, ele chegou em casa cedo pois assistíamos juntos a programação de um canal que gostamos muito, e ele queixou-se novamente de um mal estar e disse que achava que estava ficando gripado, nesse dia já dei um efervescente de vitamina c com zinco pra ele, comeu normalmente e foi dormir, dormimos juntos sempre, na quinta-feira ele foi ao consultório, atendeu e como era véspera de feriado desmontou o equipamento de foco de seu consultório pois iria pintá-lo.

Sexta-feira, feriado de Sexta-feira Santa, ele ficou em casa e já tinha sintomas de resfriado, eu continuava com a vitamina c, mas ele não melhorava, até que no final desse dia ele apresentou febre, aí eu já estava muito alerta para sintomas de covid-19, embora ele estivesse totalmente descrente, comecei a entrar em contato com pessoal da linha de frente, médicos, anestesistas, infectologista e a recomendação era a mesma: não vá ao hospital, o covid vai pegar você, tudo cheio, muita gente doente e etc..

Iniciamos medicação e ele ficava bem até que no sábado decidimos por levá-lo, e assim foi, no exame de sangue uma discreta alteração viral, porém pediram para voltar em 48 horas para repetir, porém na madrugada de domingo para segunda ele vomitou muito e eu levei ele pra emergência, não pude ficar porque deixei meu filho de 6 anos sozinho, o mais velho estava com a minha mãe pra que ela não ficasse sozinha na quarentena.

Deixei ele no hospital e voltei pra casa, já muito preocupada e no fim do dia, depois de quase um dia todo no hospital ele volta com uma tomografia com alteração compatível com quadro inicial de covid, ele foi mandado para casa com indicação da Azitromicina um comprimido por dia e Novalgina de 1 grama de 8 em 8 horas e Dramim por conta das náuseas, fiz toda medicação a esta altura comecei a dormir no quarto do meu filho, pois temia ficar doente também e não ter como cuidar dele e nem do pequeno.

De quarta em diante ele deu uma grande prostrada, e na quinta-feira conversamos sobre ele aceitar que estava doente e deveria tomar a medicação e se alimentar para sair daquele quadro. Eu dizia que não queria que ele fosse para o hospital. Antes disso na terça-feira ele fez o teste de covid aqui em casa mesmo, um laboratório veio realizar a coleta.

Passou nossa conversa de quinta-feira e na sexta ele acordou com leve falta de ar, liguei pra Lucia, nossa secretária, pedi a gentileza que ela viesse só para olhar o Emanuel porque eu sabia que iria demorar, não precisava que ela fizesse nada, era só pra ficar com ele pois não tinha ninguém pra deixá-lo.

No hospital sua saturação estava 85, foi para o oxigênio e fui logo informada que precisaria interná-lo com urgência, mas que onde estávamos não havia leitos de CTI com respirador disponível, esperamos transferência, que saiu no final da tarde. Fui com ele na ambulância, tinha levado uma mantinha e o cobri pois estava com frio. Fomos juntos e sozinhos na parte de trás, conversamos e ele novamente me disse que estava com medo de morrer e eu enfaticamente disse que NÃO, que ele voltaria logo pra casa, porque era forte e muitíssimo saudável, e que sairia dali plenamente curado!

Sinto que eu o enganei, pois no dia seguinte ele foi intubado e exatamente uma semana após o tubo, ele se foi, por uma parada cardíaca de 50 minutos, em 8 dias no hospital o covid tirou o amor da minha vida, pai do meu filho e melhor amigo! Me despedacei, mas não acaba aí….

Nesta semana em que meu marido passou internado, eu não podia ficar com ele, então fui até a minha mãe buscar meu filho mais velho, para caso eu precisasse sair de casa e não tivesse que levar o pequeno pra rua, mas não sai do carro, estava de máscara, ela me perguntou se eu gostaria que ela fosse pra minha casa para ficar com a gente, disse que não, tinha medo e que queria ajudar (a marca dela era essa, sempre querer ajudar) e eu disse não, porque eu queria de todo modo preservá-la.

Ela me disse que não sentia gosto das coisas, eu nem me atentei, só falei para ela se cuidar e que a amava muito. Ela ficou triste porque queria me abraçar, disse a ela que nós nos abraçaríamos muitas vezes ainda. Novamente eu menti, mal sabia que aquela era a última vez que eu a estava vendo. Na sexta-feira, dia 24 de abril, um dia antes do falecimento do meu esposo, minha linda pediu ao meu pai para que a levasse no hospital pois estava se sentindo com desconforto para respirar, não me falaram nada, eu creio que para me poupar pelo tanto que eu já estava passando.

No domingo, dia 26, um dia após o falecimento do meu esposo ela foi transferida da UPA para o hospital de campanha do Leblon e no dia 27, segunda-feira foi o sepultamento do meu esposo. Nesse mesmo dia, minha linda princesa foi entubada, e vivemos dias de terror como numa montanha russa, ela brigava arduamente pela vida, diferente do meu esposo que foi rapidamente muito comprometido pelo alastramento da doença que danificou muitos órgãos de seu corpo.

Em minha mãe a doença ficou no pulmão e ela melhorava um dia e piorava 3 e foi passando dias, uma semana, duas, três e eu já achava que ela sairia de lá com vida, mas foram aparecendo as infecções pulmonares por bactérias, e foram mais duas, e ela brigando muito pela vida, uma guerreira. Nesse meio tempo foi o aniversário de 15 anos do meu filho Breno, esse menino que ela ajudou a criar, e exatamente uma semana depois no dia em que fez um mês do sepultamento do meu amor, recebo a ligação do hospital chamando a família, mas eu já sabia, minha linda também havia partido e eu fiquei duplamente quebrada.

Sem chão, sem rumo, tentando ser forte, por causa de meus filhos, mas a minha sensação é que estou ainda em queda livre, já perdi a alegria que eu tinha de viver. Hoje eu apenas sobrevivo, porque se eu não levantar, eles não comem, porque se eu morrer eles vão ficar sem nada.

Eu estou tentando, mas o tempo só me mostra que não melhora, todo dia eu sinto falta deles, todo dia eu gostaria de ter ido no lugar deles dois, penso que se fosse eu no lugar deles as coisas seriam mais fáceis, pois estava tudo arrumadinho na vida deles, e a minha que estava no caminho para se acertar, ela encontra-se como um quebra cabeças de 3 mil peças espalhadas e eu não tenho a mínima vontade de arrumar, estou em modo automático!

Minha irmã Marta

por Marine Andrade

Perdemos nossa querida Marta.
Uma irmã muito amada e que além de ser uma mãe zelosa, que amou incondicionalmente sua filha, também viveu intensamente para o trabalho, para a nossa mãe, suprindo a falta de nosso pai por ser a mais velha e esteio da família, e que foi nossa companheira durante toda uma vida.

Sua perda é e será irreparável! Nunca será curada mas sim amenizada pelo tempo. Pois sabemos que o tempo se encarrega dessas mazelas da vida. Eu, com o meu coração ainda enlutado estou tentando viver e entender!

Sei que o processo é lento ainda mais quando pelo fator idade, já perdemos outros entes queridos! Nosso cérebro demora mais para processar tanta tristezas. Estou vivendo. Um dia de cada vez!

Oro. Medito. Tentando ainda processar essa fatalidade. Não está sendo fácil. Além do isolamento dos meus filhos, a minha solidão… Penso ainda a todo instante se é verdade. Estou vivendo este momento. Será que tudo é verdade? Peço a Deus acordar e ser um pesadelo!!!

Meu pai Roberto

por Dayvison Hilário

Com o início do surto na China, notei algo diferente: estavam tratando a gripe como se trata ebola, com roupas muito especiais. Em janeiro, fiz um post alertando que chegaria aqui. E chegou. Em março, alertei a todos que ficassem em casa. Aos meus pais, aposentados, pedi que não saíssem para nada.

Eu e minha namorada trabalhamos como médicos na linha de frente. No final de abril, ela adoeceu. No dia em que a levei para fazer o exame, meu pai me disse que também estava doente. Comprei tudo em dobro para tratá-los em casa. Ambos estavam bem e sem necessidade de internação.

Após uma semana tratando os dois em casa, e vendo a necessidade em ajudar mais pessoas com covid-19, resolvi aceitar um convite para trabalhar no hospital de campanha em Niterói. Liguei e acertei para iniciar no dia seguinte.

Naquela terça, fui internar uma gestante com covid-19. Esposa de médico e grávida de 25 semanas. Minha namorada estava bem melhor. Meu pai me disse que não havia pregado o olho àquela noite. Foi aí que acendeu uma luz amarela. Fui à casa deles e vi a saturação do meu pai em 87%.

Dia 5 de maio levei-o a um hospital particular onde a tomografia mostrou comprometimento de 70% dos pulmões. Quando iam interná-lo, fiquei sabendo da falta de vagas. Meu plantão começaria às 19h. Avisei que não poderia ir.

Levei meu pai para um hospital público, onde alguns colegas me ajudaram e o internei. No dia seguinte, ele foi transferido para o hospital de campanha onde eu deveria ter iniciado no dia anterior. Ficou 48 horas acordado. No dia 8/5, ao meio dia, cheguei para vê-lo. Ele segurou minha mão, disse que havia falado com minha mãe pelo celular da médica plantonista e que iriam intubá-lo. Eu disse que não!

Mas ao olhar para o lado, vi que já estava tudo preparado. Segurei sua mão e disse que seria melhor, para ele descansar e conseguir dormir, que estaria ali com ele, segurando sua mão. Ele apertou minha mão, foi sedado e adormeceu. Sua mão foi soltando a minha, e em questão de um minuto, já estava em ventilação mecânica.

Foram 21 dias assim, sem voltar a acordar. Nesses dias, como era médico do hospital, entrei e saí diversas vezes daquele CTI. Fiz alguns procedimentos no meu pai, como punções, coletas de exames, solicitações de raio-x, além de discutir com os colegas sobre as condutas.

Depois que saía, ligava pra minha mãe. Dias animado com a melhora, outros desanimado com a gravidade do quadro. Dei alguns plantões no CTI com meu pai intubado. Tentei de todas as maneiras tirá-lo do respirador. Infelizmente, no último dia 29/5, meu herói partiu.

Para minha família, por causa da impossibilidade de visitas, o distanciamento aconteceu no dia 5/5. Já pra mim, a despedida foi no dia 30/5, onde fui reconhecer o corpo na capela mortuária do hospital. Pedi para deixar o rosto visível dentro do caixão lacrado. Fui atendido, e ao chegar no cemitério, onde não pode haver velório e somente 10 pessoas no sepultamento, antes de o colocarem na sepultura, abri o local onde fica o vidro para minha mãe poder olhar meu pai pela última vez. Ali nos despedimos dele.

Agora ficam as lembranças, a saudade e o vazio que jamais será preenchido. E pensar que ele pegou a doença por me achar desesperado demais, que era só uma gripe, e por isso, não obedeceu o que pedi: que ficasse em casa.

Nos primeiro 40 dias, não entrei nenhuma vez na casa dos meus pais. Chegava da rua, de dentro do carro, conversava com eles sem desligar o motor e seguia. Mas ele saía depois, pois não acreditava na gravidade da doença. Depois, começou a deprimir vendo tantos comércios fechados. Adoeceu, ficou grave, partiu. Eu tentei de tudo, mas não consegui salvar meu pai. Infelizmente.

Agora, volto amanhã, dia 9/6 para a guerra, pois essa foi só uma dura batalha perdida.

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