Memórias

Existem várias formas de elaborar nosso processo de luto, uma delas é a partir da escrita e compartilhamento de sentimentos que emergem com esse processo. Por isso criamos este espaço.

Aqui cabe um universo de emoções: tristezas, dores, medos, memórias, lembranças, afetos. Cabe um amor, um tio, um pai, uma mãe, um amigo, um avô. Cabe o que for de coração.

Você pode escrever o que quiser e como quiser. E pode escolher se quer o texto publicado ou prefere deixá-lo em um cantinho só seu. A gente vai te responder, dando atenção e acolhimento que você precisa e merece.

Fique à vontade, a página é inteiramente sua.

Enviar minhas memórias

Meu pai Adair

por Cartas pro meu Pai

Às vezes nem parece que tu se foi.

Às vezes dá uma saudade… um aperto no peito! E eu nem sei porque é aqui que eu venho… acho que é só porque tenho onde escrever… parece que vai chegar em ti… porque a bem da verdade acho que ninguém nem atualiza esse site!

Parece que vivo num mundo paralelo… muito difícil não poder te ver pela última vez! Muito triste imaginar que muitas pessoas ainda estão passando por isso… acho que assim é mais difícil assimilar!

Tu só saiu pra hemodiálise e não voltou! E aqueles últimos 46 segundos que nos falamos não saem da minha cabeça!

Te amo tanto!
Que saudade.

Meu pai Adair

por Cartas pro meu Pai

Pedi tanto que aquela ligação não fosse a última!

Um dia antes do dia dos pais e naqueles últimos 46 segundos de nossas vidas tu me chamou de minha filha pela última vez! Tão fraquinho e eu desmoronei!

Dói lembrar do dia que a médica nos disse que teríamos uma video chamada pois tu estavas ansioso querendo falar conosco. Uma chamada que não aconteceu!

Fico pensando no que tu pensou enquanto estavas lá. Fico triste de saber que tu estavas triste também. Preocupado que nos deixaria.

Tu sempre foi um cara esclarecido e eu penso que seria tão melhor se tu não fosse naquela época. Eu preferia que tu não soubesse o que ia acontecer! Assim tu não sofreria com isso! Mas tu sabias! Eu sei que sim! Eu sinto muito!

Um dia antes falamos tanto ao telefone! E tu disse que me amava pela última vez!

Tão horrível e tão desumano! Nem pude te contar que estive muito mal com essa porcaria de vírus, mas sobrevivi pra cuidar da mãe e do mano! Tão mal que estive mas só lembrava de ti, naquele hospital, com uma esperança tão pequena e tão persistente de que tudo daria certo.

Muito triste não te ter mais! Nos nossos áudios gravados te encontro às vezes, mas as conversas não mudam! Tenho tanto pra te contar!

Que saudade, meu pai querido!

Minha mãe Nilza

por Rosa

Bom, vamos ao meu relato, à minha experiência… É muita dor que sinto ainda, mas vou compartilhar com vocês um pouco da minha dor.

No dia 21/07, minha mãe de 68 anos (fumante há 50 anos, com DPOC) sofreu uma queda da própria altura e bateu a cabeça. Com uma fragilidade capilar intensa, seus braços ficaram em carne viva. Vamos socorrê-la e a levamos ao Hospital São Matheus, em Bangu.

Chegando lá foi atendida e o Dr. Thiago, que estava de plantão, resolveu interná-la para investigar um pequeno cisto no cérebro. Porém foi para o CTI devido a fraca respiração, e foi avaliada pelo Neurologista, o qual me falou que o cisco não comprometia em nada e nem era caso de cirurgia.

Ela ficou 2 dias no CTI e teve alta pro quarto. Eu, filha dela, fiquei como acompanhante dela. Ela estava se recuperando bem, aguardamos a equipe do home care instalar na casa dela os aparelhos para o oxigênio auxiliar na respiração.

No dia 28/07 eu comecei com uma amigdalite, lá mesmo no hospital o médico me avaliou e disse que era apenas uma amigdalite, e me passou uma benzetacil. Tomei e em dias melhorei, porém no dia 30/07 meus dois filhos também começaram com essa amigdalite. Falei com o médico que cuidava da minha mãe, “como era normal aqui em casa sempre que eu tinha amigdalite, meus filhos também tinham…”. O médico disse pra eu não me preocupar pois a covid não causava amigdalite com pus.

Enfim, no dia 01/08, meu esposo começou com febre alta e dor no corpo. O médico disse que como ele não tinha amígdala poderia está se manifestando de outra forma. Bom, continuei cuidando da minha mãe no hospital. No dia 06/08 ela teve alta, no dia 07/08 foi aniversário dela.

Ela foi pra casa se recuperando bem, com suporte de oxigênio, fazendo fisioterapia em casa. Porém no dia 13/08 ela começou com muita dificuldade em respirar. Liguei pro plano e enviaram o médico e ele avaliou ela, e levamos pro hospital. Lá ela ficou com acesso com antibiótico forte.

Meu esposo ainda estava se sentindo mal, porém já havia passado pelos médicos 2 vezes e ninguém cogitou covid. Porém na emergência eu pedia ao médico para passar uma tomografia pra ele, enquanto aguardava o resultado da tomografia da minha mãe. Bom, o resultado da tomografia dele não foi diferente da minha mãe, vidro fosco com pneumonia viral.

Eu perdi meu chão, minha mãe e meu marido estavam com covid. Eu na hora surtei dizendo que, por ter manifestado os sintomas primeiro, achei que eu havia matado minha mãe 😭. O médico me deu um calmante, eu apaguei, meu sobrinho e minha sobrinha ficaram lá com a mamãe aguardo a transferência.

Ela foi levada pro hospital São Lucas em Niterói na madrugada. Chegando lá teve duas paradas cardíacas e não resistiu. Foi morar com Papai do Céu.

E eu e meu esposo e meus filhos fizemos o teste PCR, todos positivos. Essa doença acabou com minha saúde mental, estamos praticamente assintomáticos, só meu esposo que ficou mais grave. Eu e meus filhos tivemos uma pneumonia fraca, e muito medo.

Estamos todos bem. Mas pagamos um preço altíssimo: perdi minha mãe!

Não me conformo, sei que fomos contaminados no hospital, mas tento trabalhar isso na minha mente o tempo todo. A dor no meu peito é muito forte, a culpa de eu poder ter passado isso pra ela não me deixa dormir.

Sei que o tempo vai amenizar, estou compartilhando com vocês para que de alguma forma possa ajudar alguém com minha triste experiência com essa terrível doença.

Quero dizer que cuidei da minha mãe com muito amor envolvido. Nunca imaginei que isso iria acontecer. O que eu e meus irmãos sempre pedíamos pra ela parar de fumar, que se ela fosse parar no hospital isso poderia acontecer, mas ela nunca deixou de fumar por isso.

E tudo que tanto tinha medo de acontecer, acabou acontecendo. A doença nela foi muito rápida, e levou a vida dela em apenas 2 dias!

Bom aqui está meu relato com muita dor, muita mesmo, eu compartilho com vocês.

Meu pai Antonio Carlos Rapette

por Fiama Rapette

Meu pai Antonio Carlos Rapette, do interior de São Paulo, veio passar a quarentena na casa do meu irmão em Recife. Depois de 2 meses em Pernambuco começou com um pouco de tosse. Conversando por WhatsApp com ele, eu como médica disse pra tomar um xarope e antialérgico; como era só tosse, sair de casa era um risco maior.

Depois de uma semana nosso cachorro de 15 anos faleceu. Ele ficou muito mal e não queria comer direito, então fui visitá-lo. Quando examinei percebi que tinha que levá-lo direto ao hospital. Ficou internado com o diagnóstico de insuficiência cardíaca, depois de uma semana teve alta e depois de 4 dias começou com febre. Levamos ele para o hospital de novo e já estava com coronavírus. Depois teve muitas complicações, ficou 2 semanas intubado e não resistiu.

Ele com 59 anos só tinha hipertensão arterial, mas era controlada, tinha feito exames de sangue e ecocardiograma em menos de 1 ano e estava tudo normal. Não deu nem tempo de descobrir qual foi a causa da insuficiência cardíaca.

O mais difícil foi não poder estar ao lado dele, acompanhando depois que deram o diagnóstico de covid-19. Também ainda é difícil entender porquê era hora dele partir, tinha tantos planos com ele.

Ele não conheceu nenhum neto, era uma pessoa tão bondosa, humilde, sem ambição, puro de coração, sereno, amoroso, generoso, se orgulhava muito dos filhos e cuidava da minha vó com todo amor do mundo. Amava músicas clássicas, museu, ferromodelismo, fazer maquetes, tocar violão e cavaquinho. Amava doces e animais, qualquer cachorro adorava ele. Quando eu me arrumava para sair era lindo como ele me elogiava, sempre consertava meus brinquedos quando criança e meus brincos e pulseira quando moça. Não reclamava de nada, sempre estava tudo bem.

Eu nunca senti uma dor tão grande, a saudade não cabe em mim.
Te amo muito meu paizinho lindo!

Meu pai Mauri

por Mariana

“Filha, estou contaminado!”

Há pouco mais de um mês escutei as tão temidas palavras vindas de um pai que sempre foi pra mim sinônimo de força, mas que naquele momento se tornava frágil e tomado por medo. O pranto tomou conta da nossa vídeo ligação. Meu chão sumiu, se afundou, desmoronou.

Depois daquela ligação ainda consegui o ver mais uma vez, já internado no hospital, algumas horas depois. Consegui dizer a ele que o amava muito e que estava ao seu lado para atravessar aquele caminho que sabíamos que não seria fácil.

Ele pouco falava, já com bastante falta de ar. Gesticulou que também me amava e aquilo significou muito pra mim. Muito. Também conseguiu, com bastante dificuldade, me dizer que “ia sair dessa”. Guardei aquelas palavras bem perto do meu coração em pedaços. Ele estava lutando contra aquele maldito vírus. Eu acreditava que ele ia vencer. Ele tinha me prometido que ia…

Foram 2 semanas de muita angústia, enquanto ele, em estado muito grave, lutava contra a doença. A distância física nos separava, mas o amor nos unia… A doença foi mais forte que meu pai e ele não conseguiu cumprir a promessa que me fez.

Um pedaço de mim se foi no dia que meu pai nos deixou. Meu pai… Meu pai se foi… Ainda acho muito difícil acreditar. Sua partida foi tão cruel e dura pra mim. Ele tinha acabado de completar 69 anos, e em duas semanas se foi, longe de mim, sem velório, enterro às pressas organizado por amigos amados, caixão fechado sem ninguém poder se despedir… Quanta dor, quanta tristeza. Não pude nem enterrar o meu próprio pai…

Nossas ligações de vídeo diárias me fazem uma falta tão grande. Não poder dividir com ele as pequenas conquistas dos meus filhos, me parte o coração. Pensar que daqui pra frente ele não estará mais ao meu lado pelo resto da minha vida me deixa sem chão. Que falta você já me faz, pai. Que vazio…

Mas meu pai não está não só nas minhas memórias, ele também está no meu corpo, é parte de mim. E o vejo quando me olho no espelho. O vejo. Sua presença foi arrancada de mim de forma trágica e cruel, mas isso nunca ninguém vai tirar de mim.

Meu pai, te amo, todos os dias e para sempre.

Meu pai Vicente

por Priscila Alcântara

Perdi meu pai pela COVID de uma forma extremamente rápida. Mas agradecemos a Deus pelo cuidado dele em todo o processo.

Meu pai estava sem sintomas, como é divulgado, para que suspeitássemos do vírus. Quando resolvemos levá-lo ao hospital, ele estava a poucos dias prostrado e não conseguia fazer as atividades que normalmente fazia.

No dia 9/07, o levei ao posto de saúde onde foi transferido para a UPA da região. No dia 11/07, ele foi transferido para o Hospital municipal da cidade em que morava.

A princípio não tinham suspeitas de covid, porque realmente ele não estava com sintomas. Dois dias depois da internação ele foi entubado. O quadro dele estava sempre melhorando, tínhamos grandes esperança dele se recuperar e voltar para casa.

Na madrugada do dia 26/07, meu pai sofreu duas paradas cardíacas. Na primeira, ele resistiu e voltou. Na segunda, ele não conseguiu! Durante todo esse processo, eu sempre pedi muito a ele para lutar até o fim, não desistir… Por mais que eu visse o quanto estava sendo difícil para ele, mesmo assim, ele estava se esforçando.

O que eu menos queria era que meu pai sofresse. Pedia a Deus, noite e dia, que ele não sofresse.

Meu pai, foi um homem que aproveitou muito a vida, da forma que ele gostava. Antes dele internar, conseguiu rever amigos de décadas, estar com a família… comemorar seu aniversário de 70 anos. E no aniversário de 69 anos, ver toda a sua família reunida.
A perda é algo muito difícil, que não estamos preparados… Mas as boas lembranças, sentimentos de que vivemos o melhor com ele, tem acalmado meu coração. Não é fácil! Tudo mais rápido, assustador e triste.

Mas tenho a plena certeza que realmente fizemos o que podíamos. Ao ouvir da médica que ele lutou até o fim, foi a resposta e o alívio. Sei que ele fez isso por nós! E também sei que agora ele está bem.

O que nos resta são as boas lembranças! Muitos momentos especiais! Registros e muito amor. Porque o meu pai vive em nossas memórias, coração e saudade.

Meu marido Evandro

por Suely

Conheci meu marido com 14 anos. Meu primeiro e único amor.
Nos casamos em 1983 e tivemos 4 lindas filhas. Uma com 34 anos, outra com 32, 22 e a mais nova com 13 anos. Éramos uma família linda e com a chegada da nossa neta, tudo parecia perfeito.

Meu marido era a pessoa mais carinhosa do mundo e todo preocupado com a segurança de nossa família. Todos os dias ele falava que me amava, mesmo tendo 37 anos de casados.

Com a chegada da pandemia ele se afastou do trabalho pois tinha diabetes e era hipertenso. Não deixávamos ele sair de casa por nada. Até que um dia ele teve que comparecer ao trabalho, pois ele precisaria resolver um problema. Logo em seguida começaram os primeiros sintomas, como tosse e falta de ar. Mas nunca imaginei que pudesse ser covid.

Após 3 dias com sintomas ele foi para o hospital onde o médico disse que poderia ser covid, mas que poderia ir para casa e fazer tratamento com antibióticos. Mas só piorou e 4 dias depois, foi internado. No dia seguinte ele soube que teria que ser entubado. Nesse dia eu e minhas filhas estávamos reunidas falando com ele por chamada de vídeo. Seu rosto assustado não me sai da memória. Ele queria se despedir.

Eu e minhas filhas ficamos desesperadas mas sem perder a fé, tínhamos esperanças de que ele ficaria bem, pois só tinha 57 anos. Foram 20 dias na UTI. 20 dias em que só tínhamos notícias ruins. Rezamos dia e noite pela recuperação dele.

Até que no domingo, 19 de julho, veio a notícia mais triste da minha vida. Ele havia partido. Teve uma parada cardíaca e não suportou. Pensei: Como Deus pode fazer isso comigo? Levou meu companheiro, minha vida e justo no mês do aniversário dele, que ele adorava comemorar.

Hoje tem 13 dias que ele partiu. Minha vida não tem mais sentido. Não faço outra coisa a não ser chorar. Só penso em seguir porque tenho minhas filhas que precisam de mim. Mas como vou viver sem o amor da minha vida?

Meu pai Cosme

por Camila Amaral

Meu querido e amado pai, eu lhe amo tanto.
Meu pai me chamava de Mi, era meu amor maior. Não morávamos juntos. Mas a cerca de 20 minutos de distância.

Dia 27/06/2020 pai tinha me mandado uma mensagem, no WhatsApp, falando que tinha dado febre, eu disse: “Pai, você precisa consultar, beber mais líquido”. Pai disse que não ia ao médico.

Meu pai tinha 61 anos, nenhuma comorbidade, era aposentado e morava com minha mãe que trabalha na maternidade do hospital (e minha irmã Janaynna mora em cima da casa de meus pais, com seu filho e esposo). Pai era muito higiênico e usava máscara.

Dia 28/06 fui à casa de meu pai que estava sozinho (minha mãe estava trabalhando), fiz suco de limão para ele, ele brigou comigo dizendo que queria era suco de laranja. Juro que não pensei que seria a covid-19, pois meu pai estava andando, falando. Apenas mandei mensagem, no WhatsApp, para minha mãe, falando que pai queria suco de laranja. De noite mandei mensagem no WhatsApp, mãe disse que pai estava melhor e tinha tomado suco de laranja, que mãe tinha trazido.

Dia 29/06 fui à casa de pai e levei pizza, pai brigou comigo, dizendo que não era para eu gastar dinheiro com pizza. Eu arrumei todo o quarto de meu pai, tirei toda a poeira, troquei os lençóis da cama, e do sofá na sala, onde pai ficava. Pois na minha inocência, achava que era gripe, pois a cidade que moro é muito quente, e na última semana de junho fez muito frio, muito frio mesmo. E pai geralmente gripava no frio. Assim, fui embora para minha casa.

Na madrugada de segunda-feira, dia 30/06, dei muita febre e, como moro sozinha, quando amanheceu eu tirei uma foto minha, mandei para meu pai e disse: “Pai agora quem está mal sou eu. Vou ao posto de saúde porque estou com muita febre. O senhor que ir?”. Pai disse que não. Fui ao posto, a médica suspeitou de dengue, e pediu para eu ficar isolada 14 dias. Meu pai apareceu no posto, eu disse a ele que eu estava bem, mas que precisaria ficar 14 dias sozinha (isolada), meu pai disse: “Tudo bem”.

Em nenhum momento eu suspeitava do vírus, não sei dizer até onde era inocência, ou se não conseguia processar rápido as informações. E neste dia, não disse a meu pai: “Pai, aproveita que o senhor está no posto e consulta”. Eu juro que não lembrei, não ligava uma coisa a outra, estava com muita febre. Daí pai foi para a casa dele, eu fui para a minha. Dormir a tarde toda de segunda. Depois, mandei mensagem a meu pai perguntando se ele estava melhor. Pai disse que um pouco, e ele disse que ia ao supermercado e perguntou se eu queria algo. Eu disse: “Não pai, muito muito obrigada. Vou ficar quietinha aqui”.

Daí, dia 01/07, Janaynna que mora em cima da casa de pai, disse que ia levá-lo ao hospital, pai disse: “Amanhã você me leva”. E minha mãe tinha recebido atestado médico pedindo para ficar isolada 14 dias (pois estava com sintomas da covid).

Mandei mensagem às 20h do dia 01/07 no celular de meu pai, perguntando como ele estava. Pai não respondeu. Dia 02/07 mandei mensagem cedo para pai, pai de novo não respondeu. Mandei mensagem para minha mãe, mãe disse que Janaynna havia levado pai para consultar. O primeiro teste para a covid deu negativo, mas como pai estava tossindo e cansando muito, e a tomografia foi sugestiva para a covid, segundo a minha irmã Janaynna, a médica sugeriu que pai ficasse no hospital, na ala pré-covid, para fazer mais exames e também porque a oxigenação não estava estável.

Eu lembro que perguntei a minha irmã: “Mas isso é seguro?”. Perguntei porque os médicos não me deixaram entrar para ver meu pai, só fui deixar as roupas para a internação. Deixei as roupas com a minha irmã e falei com Janaynna: “Janaynna, fala com pai que o amo muito, viu? E avisa a ele que já estou melhor”. No outro dia, 04/07, como minha irmã tem filho pequeno, eu assumi a frente com meu pai, e fui buscar o boletim médico. Eu toda contente com água de coco, água mineral, uma coisas que meu pai gosta de comer, enfim… pois achava que meu pai teria alta, mas a médica disse que pai seria levado para o CTI. Neste dia, eu desesperei e liguei para minha irmã e minha mãe e disse que elas tinham de vir urgente ao hospital.

Eu perguntei várias vezes aos médicos se pai poderia ser transferido para outro hospital, o médico disse que não se responsabilizaria, pois a oxigenação de meu pai não estava estabilizando. E que o CTI daria um conforto maior para meu pai, pois ele estava cansando muito.

Vi meu pai passando de maca de bruços para o CTI, eu ainda gritei: “Pai!”. Foi a última vez que o vi. Mandei vários recadinhos de autoadesivos (Post-it) pelos enfermeiros e médicos, dizendo o quanto pai era meu amor maior, o quanto ia dar tudo certo, o quanto Camila estava lá, atrás daquela porta do CTI. Deixei o número de meu telefone também, pois pai não sabia meu número de cabeça.

O enfermeiro colou todos os recados para meu pai ler, e eu ainda pedi que se pai pudesse escrever um bilhetinho para mim, pai escreveu: “Camila em breve estaremos juntos”.

Dia 05/07, meu pai foi intubado pela tarde e às 21h meu pai faleceu. Foi o dia mais triste de minha vida, por tudo o que aconteceu. Eu achava que eu deveria ter raciocinado antes, sabe? Ter agido antes. Quando cheguei à casa de minha mãe, mãe estava só deitada e muito mal. Tirei minha mãe de casa na hora, levei ela na Unimed, ela consultou, o médico receitou Azitromicina, comprei na hora, e a levei para morar comigo. Bem como comprei o oxímetro para monitorar a oxigenação do sangue. Monitorava minha mãe 24 horas, e depois de uma semana, minha mãe começou a melhorar. Já não tossia muito, já se alimentava melhor e andava um pouco.

Enfim, a perda de meu pai dói a minha alma de uma forma inexplicável. E graças a Deus minha mãe se recuperou do vírus. E hoje está bem, e mora comigo. Mas ela já voltou a trabalhar, pois disse que o hospital é a vida dela. Enfim, eu tentei transferência dela para outra área de trabalho fora do hospital, mas minha mãe não aceitou.

Meu pai José Moreno

por Dani

Ah meu querido pai… Era assim que eu o chamava. Ele sempre com aquele jeito de que tudo estava bem mesmo quando eu sabia que não estava. Sempre foi um excelente pai, sempre presente mesmo depois de ter se separado da minha mãe quando eu ainda era criança. Pegava na escola, passeávamos, me dava amor e carinho. Cresci, virei uma mulher e ele sempre ali, meu querido pai. Adorava contar piadas e falar de lugares que ele nunca tinha ido. Mó figura, muito prestativo e bondoso, especialmente com as crianças e idosos.

Meu pai nunca teve um problema de saúde e por ser muito medroso sempre se cuidava. No último sábado de abril meu pai me ligou para saber como eu estava, conversamos amenidades. Notei sua voz fanhosa, estava gripado. Disse que não tinha olfato. Acendeu minha luz vermelha. Falei para ele ir ao médico. Ele como sempre disse que não era nada demais.

3 dias depois ele se internou. Febre, coriza, falta de ar. 4 dias depois ele foi intubado, 4 dias mais e ele me deixou… Esse vírus maldito levou meu querido pai em uma semana e fiquei aqui sem saber das coisas, sem poder ter ido visitá-lo, sem poder ter dado um beijo, um apoio, sem poder ter me despedido no seu enterro, sem poder ter pego na sua mão e dizer que ele não estava sozinho. Na véspera da intubação eu disse que o amava muito pelo WhatsApp. Ele me mandou uma foto dele no respirador… E disse que me amava também. É muita dor… Nunca mais serei a mesma.

Meu esposo Hamilton

por Mayara

Dia 12 de junho era para ser um dia de comemoração como em todos os anos, o Dia dos Namorados. Mas para mim deixou de ser um dia para se comemorar, e agora será uma data para me lembrar com dor no coração, dor na alma e no corpo.

Hamilton estava há 18 dias hospitalizado, 4 dias no pronto atendimento e 14 no CTI, diariamente haviam boletins médicos e os médicos sempre faziam questão de frizar: “Ele é jovem, saudável e tem tudo para se recuperar…” É, mas não foi bem assim, foi tudo tão repentino, em um momento ele estava bem, se recuperando e de repente uma ligação às 23h pedindo os documentos do Hamilton pois havia tido uma intercorrência.

Ali abriu-se uma cratera sob os meus pés, agarrei-me às suas roupas e chorei copiosamente, meu corpo todo tremia e meus lábios estavam roxos, o sangue do meu corpo “desapareceu”pois naquele momento eu sabia, eu sentia que meu Hamilton havia partido. Aos 33 anos, saudável, forte e lindo vítima do covid 19. Nunca havia passado pela minha cabeça perdê-lo dessa forma, nunca pensei na morte como sendo algo tão próximo da minha realidade, não naquele momento. Sempre achamos que não vai acontecer na nossa família.

A minha vida parou, perdi completamente o sentido de tudo, com um bebê de 6 meses para cuidar, pensei e agora!? O que eu vou fazer, como vou viver sem a minha metade, sem o amor dá minha vida, e meu filho?! Como vou criá-lo sozinha!? Eu estava sem direção e com uma dor enorme no corpo inteiro, pois a dor emocional atravessou a minha carne naquele momento e tomou o meu corpo. Como eu iria sobreviver diante dessa perda!?

E os dias continuaram a passar, as pessoas continuavam suas vidas e eu pensava: como pode o mundo seguir normalmente? Eu perdi o amor dá minha vida, meu amigo, meu companheiro, meu parceiro pra dividir tudo na vida. Simplesmente era impossível olhar adiante e não ver ele mais caminhando ao meu lado. Eu viúva aos 33 anos e com um bebê para cuidar, eu simplesmente não sabia o que fazer com a minha vida mais, como eu vou reaprender a viver assim, ninguém havia me dito que eu teria que passar por esse momento tão cedo, assim sem explicação.

Hoje tem 1 mês e 3 dias desde a morte do meu amado e a ferida continua exposta, a solidão me abraça, o silêncio é ensurdecedor, tudo muito frio, não pude me despedir do meu amado, é tudo muito sofrido nesse momento.

Estou tentando viver um dia de cada vez, procuro ler histórias de mulheres que passaram ou estão passando pela mesma situação que eu, pois é tão difícil atravessar tudo isso sozinha. Procurei grupos de viúvas e sigo alguns desses grupos que me acolheram com tanto carinho e dei início ao acompanhamento psicológico. Porque quando bate aquele desespero, a ausência, a falta, a saudade, os dias ficam longos e frios demais. E saber que não estamos sozinhas ameniza um pouco de toda essa dor, ficar viúva é uma condição que não se escolhe estar nela, mas infelizmente precisamos atravessá-la e conversando com essas pessoas o fardo fica um pouco menos pesado, ser compreendida por pessoas que sabem do que estou falando é uma forma de aliviar todo esse sentimento preso dentro do peito.

Meu pai Lourival

por Jaqueline da Silva Ramos

Meu pai era um pedaço de mim, era meu porto seguro, qualquer problema que eu tivesse, era só chamar que ele vinha correndo me socorrer, era um figuraça, adorava uma bagunça, sempre animado, irreverente, aproveitou até seu último minuto de vida fazendo as coisas que gostava. O amor da minha vida!

Meu pai Jesus

por Paloma Chediak

Perder meu pai por covid-19 foi o acontecimento mais triste da minha vida. Como se não bastasse a dor profunda da perda de um pai amado, a crueldade de ver a vida dele sendo ceifada de maneira tão rápida e violenta, torna tudo um pesadelo impossível de compreender.

As circunstâncias que rondam essa doença, desde a contração do vírus até a necessidade de internação, são particularmente angustiantes. A forma como o vírus entrou no corpo do meu pai é misteriosa, visto que estava bem informado e se cuidando metodicamente. Desta forma, sinto como se meu pai tivesse sido vítima de um acaso impiedoso, como uma bala perdida “invisível”. A urgência da internação foi um golpe duríssimo, vivi dias de intensa aflição, cada minuto parecia uma eternidade e tamanho foi meu sofrimento que era insuportável não recorrer a ansiolíticos.

A notícia do falecimento impôs uma ruptura radical na minha vida, separando o antes e o depois deste trauma. Cheguei a escrever no dia “nada será como antes”, pois é justamente como eu me sinto… A maneira como se deu a minha perda ainda não faz sentido para mim, mas a terapia já está me mostrando caminhos para ressignificar tudo isso e formas de tornar meu pai presente na minha vida, ainda que simbolicamente. O meu desejo é que, de alguma forma, minha dor se torne potência para levar adiante os ensinamentos preciosos que ele me deixou, sabendo o quanto isso o deixaria feliz.

Meu esposo Emanuel e minha mãe Rosa

por Jacqueline Soares Thomaz

Olá, me chamo Jacqueline, tenho 31 anos, e até antes de começar a pandemia eu tinha uma vida de sonhos, casada há quase 7 anos, 11 anos vivendo com meu companheiro, onde temos um filhinho de 6 anos que tem paralisia cerebral, que é super esperto, sua lesão é apenas motora!

Minha mãe sempre nos ajudou a tomar conta das crianças tanto que quando viajávamos os dois, sempre era a minha mãe que ficava com eles (tenho um mais velho que tem 15 anos, fruto de um breve relacionamento na adolescência), minha mãe banca os netos, especialmente o Breno, meu filho mais velho que ela me ajudou a criar.

Depois que Emanuel (meu caçula) nasceu, eu parei minha vida para tomar conta dele, deixei de trabalhar e comecei no primeiro momento ir atrás de diagnóstico e depois nas terapias. Para não deixar de viver a vida a dois contava sempre com a minha Rosa (minha mãe) para tomar conta das minhas crianças, e eu e meu esposo (Emanuel também) podíamos ter uma folguinha da rotina, o que era ótimo!

Emanuel (marido) era dentista e sempre realizou com excelência suas funções, era o único provedor da nossa casa, moramos numa boa casa, num condomínio tranquilo, casa essa que ele conquistou com esforço exclusivo de seu trabalho como dentista! Esse ano tínhamos planos, eu entrei para faculdade de psicologia, estava muitíssimo animada em poder dar esse passo e ir atrás do grande sonho da minha vida, e ele sempre me apoiando, feliz e entusiasmado por poder me ajudar a realizar este sonho…

Até que chegou a quarentena por conta da pandemia, e na segunda quinzena de março quando tudo parou, ficamos em casa, foi nosso aniversário, ele fez aniversário dia 20, eu dia 21 e nosso filho dia 26, todos em março, no final do mês ele já estava começando a ter medo de ficar sem ter meios de manter as contas, as funcionárias e nossa casa, com isso também começaram as ligações de pacientes solicitando atendimento de emergência pois o aparelho estava machucando a boca, outra que ainda tinha pontos para serem retirados, enfim, cada vez mais ele sentia necessidade de voltar ao consultório (lembrando que a quarentena, não impedia o atendimento de médicos e dentistas, estes podiam continuar seus atendimentos) e mesmo contra a minha vontade ele disse que voltaria, e voltou.

Eu não pude fazer nada para impedi-lo, tão logo ele retornou em abril, e apesar de ter diminuído o número de atendimentos ele seguiu atendendo, quando no dia 7 de abril (terça-feira) ele atendeu uma paciente que era esteticista e aproveitou para fazer retoque de um procedimento chamado microagulhamento em seu rosto e mãos, eu não sabia, pois se soubesse não teria mesmo deixado ele fazer, pois sei que pode dar uma baixa na imunidade da pessoa que faz e em plena pandemia a última coisa que podia acontecer era ele ter uma baixa na imunidade.

Liguei para ele neste dia, porque passou do horário dele chegar e foi nesse momento que ele me disse que havia feito, me preocupei, quando ele chegou me informou que estava sentindo um mal estar, imaginamos que poderia ter sido por conta do procedimento, neste dia jantou, fomos dormir e até aí tudo bem.

Na quarta-feira, dia 8, ele chegou em casa cedo pois assistíamos juntos a programação de um canal que gostamos muito, e ele queixou-se novamente de um mal estar e disse que achava que estava ficando gripado, nesse dia já dei um efervescente de vitamina c com zinco pra ele, comeu normalmente e foi dormir, dormimos juntos sempre, na quinta-feira ele foi ao consultório, atendeu e como era véspera de feriado desmontou o equipamento de foco de seu consultório pois iria pintá-lo.

Sexta-feira, feriado de Sexta-feira Santa, ele ficou em casa e já tinha sintomas de resfriado, eu continuava com a vitamina c, mas ele não melhorava, até que no final desse dia ele apresentou febre, aí eu já estava muito alerta para sintomas de covid-19, embora ele estivesse totalmente descrente, comecei a entrar em contato com pessoal da linha de frente, médicos, anestesistas, infectologista e a recomendação era a mesma: não vá ao hospital, o covid vai pegar você, tudo cheio, muita gente doente e etc..

Iniciamos medicação e ele ficava bem até que no sábado decidimos por levá-lo, e assim foi, no exame de sangue uma discreta alteração viral, porém pediram para voltar em 48 horas para repetir, porém na madrugada de domingo para segunda ele vomitou muito e eu levei ele pra emergência, não pude ficar porque deixei meu filho de 6 anos sozinho, o mais velho estava com a minha mãe pra que ela não ficasse sozinha na quarentena.

Deixei ele no hospital e voltei pra casa, já muito preocupada e no fim do dia, depois de quase um dia todo no hospital ele volta com uma tomografia com alteração compatível com quadro inicial de covid, ele foi mandado para casa com indicação da Azitromicina um comprimido por dia e Novalgina de 1 grama de 8 em 8 horas e Dramim por conta das náuseas, fiz toda medicação a esta altura comecei a dormir no quarto do meu filho, pois temia ficar doente também e não ter como cuidar dele e nem do pequeno.

De quarta em diante ele deu uma grande prostrada, e na quinta-feira conversamos sobre ele aceitar que estava doente e deveria tomar a medicação e se alimentar para sair daquele quadro. Eu dizia que não queria que ele fosse para o hospital. Antes disso na terça-feira ele fez o teste de covid aqui em casa mesmo, um laboratório veio realizar a coleta.

Passou nossa conversa de quinta-feira e na sexta ele acordou com leve falta de ar, liguei pra Lucia, nossa secretária, pedi a gentileza que ela viesse só para olhar o Emanuel porque eu sabia que iria demorar, não precisava que ela fizesse nada, era só pra ficar com ele pois não tinha ninguém pra deixá-lo.

No hospital sua saturação estava 85, foi para o oxigênio e fui logo informada que precisaria interná-lo com urgência, mas que onde estávamos não havia leitos de CTI com respirador disponível, esperamos transferência, que saiu no final da tarde. Fui com ele na ambulância, tinha levado uma mantinha e o cobri pois estava com frio. Fomos juntos e sozinhos na parte de trás, conversamos e ele novamente me disse que estava com medo de morrer e eu enfaticamente disse que NÃO, que ele voltaria logo pra casa, porque era forte e muitíssimo saudável, e que sairia dali plenamente curado!

Sinto que eu o enganei, pois no dia seguinte ele foi intubado e exatamente uma semana após o tubo, ele se foi, por uma parada cardíaca de 50 minutos, em 8 dias no hospital o covid tirou o amor da minha vida, pai do meu filho e melhor amigo! Me despedacei, mas não acaba aí….

Nesta semana em que meu marido passou internado, eu não podia ficar com ele, então fui até a minha mãe buscar meu filho mais velho, para caso eu precisasse sair de casa e não tivesse que levar o pequeno pra rua, mas não sai do carro, estava de máscara, ela me perguntou se eu gostaria que ela fosse pra minha casa para ficar com a gente, disse que não, tinha medo e que queria ajudar (a marca dela era essa, sempre querer ajudar) e eu disse não, porque eu queria de todo modo preservá-la.

Ela me disse que não sentia gosto das coisas, eu nem me atentei, só falei para ela se cuidar e que a amava muito. Ela ficou triste porque queria me abraçar, disse a ela que nós nos abraçaríamos muitas vezes ainda. Novamente eu menti, mal sabia que aquela era a última vez que eu a estava vendo. Na sexta-feira, dia 24 de abril, um dia antes do falecimento do meu esposo, minha linda pediu ao meu pai para que a levasse no hospital pois estava se sentindo com desconforto para respirar, não me falaram nada, eu creio que para me poupar pelo tanto que eu já estava passando.

No domingo, dia 26, um dia após o falecimento do meu esposo ela foi transferida da UPA para o hospital de campanha do Leblon e no dia 27, segunda-feira foi o sepultamento do meu esposo. Nesse mesmo dia, minha linda princesa foi entubada, e vivemos dias de terror como numa montanha russa, ela brigava arduamente pela vida, diferente do meu esposo que foi rapidamente muito comprometido pelo alastramento da doença que danificou muitos órgãos de seu corpo.

Em minha mãe a doença ficou no pulmão e ela melhorava um dia e piorava 3 e foi passando dias, uma semana, duas, três e eu já achava que ela sairia de lá com vida, mas foram aparecendo as infecções pulmonares por bactérias, e foram mais duas, e ela brigando muito pela vida, uma guerreira. Nesse meio tempo foi o aniversário de 15 anos do meu filho Breno, esse menino que ela ajudou a criar, e exatamente uma semana depois no dia em que fez um mês do sepultamento do meu amor, recebo a ligação do hospital chamando a família, mas eu já sabia, minha linda também havia partido e eu fiquei duplamente quebrada.

Sem chão, sem rumo, tentando ser forte, por causa de meus filhos, mas a minha sensação é que estou ainda em queda livre, já perdi a alegria que eu tinha de viver. Hoje eu apenas sobrevivo, porque se eu não levantar, eles não comem, porque se eu morrer eles vão ficar sem nada.

Eu estou tentando, mas o tempo só me mostra que não melhora, todo dia eu sinto falta deles, todo dia eu gostaria de ter ido no lugar deles dois, penso que se fosse eu no lugar deles as coisas seriam mais fáceis, pois estava tudo arrumadinho na vida deles, e a minha que estava no caminho para se acertar, ela encontra-se como um quebra cabeças de 3 mil peças espalhadas e eu não tenho a mínima vontade de arrumar, estou em modo automático!

Minha irmã Marta

por Marine Andrade

Perdemos nossa querida Marta.
Uma irmã muito amada e que além de ser uma mãe zelosa, que amou incondicionalmente sua filha, também viveu intensamente para o trabalho, para a nossa mãe, suprindo a falta de nosso pai por ser a mais velha e esteio da família, e que foi nossa companheira durante toda uma vida.

Sua perda é e será irreparável! Nunca será curada mas sim amenizada pelo tempo. Pois sabemos que o tempo se encarrega dessas mazelas da vida. Eu, com o meu coração ainda enlutado estou tentando viver e entender!

Sei que o processo é lento ainda mais quando pelo fator idade, já perdemos outros entes queridos! Nosso cérebro demora mais para processar tanta tristezas. Estou vivendo. Um dia de cada vez!

Oro. Medito. Tentando ainda processar essa fatalidade. Não está sendo fácil. Além do isolamento dos meus filhos, a minha solidão… Penso ainda a todo instante se é verdade. Estou vivendo este momento. Será que tudo é verdade? Peço a Deus acordar e ser um pesadelo!!!

Meu pai Roberto

por Dayvison Hilário

Com o início do surto na China, notei algo diferente: estavam tratando a gripe como se trata ebola, com roupas muito especiais. Em janeiro, fiz um post alertando que chegaria aqui. E chegou. Em março, alertei a todos que ficassem em casa. Aos meus pais, aposentados, pedi que não saíssem para nada.

Eu e minha namorada trabalhamos como médicos na linha de frente. No final de abril, ela adoeceu. No dia em que a levei para fazer o exame, meu pai me disse que também estava doente. Comprei tudo em dobro para tratá-los em casa. Ambos estavam bem e sem necessidade de internação.

Após uma semana tratando os dois em casa, e vendo a necessidade em ajudar mais pessoas com covid-19, resolvi aceitar um convite para trabalhar no hospital de campanha em Niterói. Liguei e acertei para iniciar no dia seguinte.

Naquela terça, fui internar uma gestante com covid-19. Esposa de médico e grávida de 25 semanas. Minha namorada estava bem melhor. Meu pai me disse que não havia pregado o olho àquela noite. Foi aí que acendeu uma luz amarela. Fui à casa deles e vi a saturação do meu pai em 87%.

Dia 5 de maio levei-o a um hospital particular onde a tomografia mostrou comprometimento de 70% dos pulmões. Quando iam interná-lo, fiquei sabendo da falta de vagas. Meu plantão começaria às 19h. Avisei que não poderia ir.

Levei meu pai para um hospital público, onde alguns colegas me ajudaram e o internei. No dia seguinte, ele foi transferido para o hospital de campanha onde eu deveria ter iniciado no dia anterior. Ficou 48 horas acordado. No dia 8/5, ao meio dia, cheguei para vê-lo. Ele segurou minha mão, disse que havia falado com minha mãe pelo celular da médica plantonista e que iriam intubá-lo. Eu disse que não!

Mas ao olhar para o lado, vi que já estava tudo preparado. Segurei sua mão e disse que seria melhor, para ele descansar e conseguir dormir, que estaria ali com ele, segurando sua mão. Ele apertou minha mão, foi sedado e adormeceu. Sua mão foi soltando a minha, e em questão de um minuto, já estava em ventilação mecânica.

Foram 21 dias assim, sem voltar a acordar. Nesses dias, como era médico do hospital, entrei e saí diversas vezes daquele CTI. Fiz alguns procedimentos no meu pai, como punções, coletas de exames, solicitações de raio-x, além de discutir com os colegas sobre as condutas.

Depois que saía, ligava pra minha mãe. Dias animado com a melhora, outros desanimado com a gravidade do quadro. Dei alguns plantões no CTI com meu pai intubado. Tentei de todas as maneiras tirá-lo do respirador. Infelizmente, no último dia 29/5, meu herói partiu.

Para minha família, por causa da impossibilidade de visitas, o distanciamento aconteceu no dia 5/5. Já pra mim, a despedida foi no dia 30/5, onde fui reconhecer o corpo na capela mortuária do hospital. Pedi para deixar o rosto visível dentro do caixão lacrado. Fui atendido, e ao chegar no cemitério, onde não pode haver velório e somente 10 pessoas no sepultamento, antes de o colocarem na sepultura, abri o local onde fica o vidro para minha mãe poder olhar meu pai pela última vez. Ali nos despedimos dele.

Agora ficam as lembranças, a saudade e o vazio que jamais será preenchido. E pensar que ele pegou a doença por me achar desesperado demais, que era só uma gripe, e por isso, não obedeceu o que pedi: que ficasse em casa.

Nos primeiro 40 dias, não entrei nenhuma vez na casa dos meus pais. Chegava da rua, de dentro do carro, conversava com eles sem desligar o motor e seguia. Mas ele saía depois, pois não acreditava na gravidade da doença. Depois, começou a deprimir vendo tantos comércios fechados. Adoeceu, ficou grave, partiu. Eu tentei de tudo, mas não consegui salvar meu pai. Infelizmente.

Agora, volto amanhã, dia 9/6 para a guerra, pois essa foi só uma dura batalha perdida.

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